Eu sei que alguns colegas de profissão farão alguns poréns ao escrito abaixo. Foi escrito no calor da revolta com uma categoria que poderia ter feito muito pra evitar o trajeto no qual enveredamos há muito tempo. Sugestões adicionais de termos puramente ideológicos usados pelos biólogos podem ser deixados nos coments. 🙂
Ambientalismo: “soluções” pequeno-burguesas para jogarem a culpa da destruição da biosfera _ que está sendo realizada por conta da lógica capitalista na qual a humanidade está hoje presa _ nas costas dos indivíduos; o sentimento de culpa dessa “lógica” irracional conduz o indivíduo a aliviar a dor da sua consciência fechando bem a torneira depois de usar… mesmo diante da magnitude escandalosamente destruidora de uma ruptura de barragem, como a da Samarco, rompida apenas porque precisavam aumentar os lucros dos acionistas ao invés de realizarem “gastos” com manutenção preventiva num momento de queda dos preços das commodities de minérios.
Ativismo ambiental: mais atuação dentro dos limites da mentalidade pequeno-burguesa, agora mostrando claramente sua indignação diante da morte da espécie X, frequentemente desconectando a espécie X de um todo muito maior, no qual todos nós estamos inseridos, para, enfim, perder os dedos (o inteiro meio ambiente) e salvar os anéis (a espécie X), para depois perder também os anéis (a espécie X).
“Defensivos químicos”; “herbicidas”; “defensivos agrícolas”; “pesticidas”; “inseticidas: agrotóxicos. Veneno. Matam incontáveis seres humanos e destrói a qualidade de vida de outros tantos anualmente no Brasil. Poluem águas superficiais e subterrâneas, envenena o solo e diminui a biodiversidade onde quer que comece a ser utilizado.
Ecoturismo: se tem “eco” no nome (valendo pra todo o resto!), consequentemente, sou ecológico, seja lá o que isso signifique! Ecologia é aquela disciplina do curso que serve pra eu obter meu diploma, ecoturismo é pra eu postar fotos fantásticas nas redes sociais.
Educação ambiental: um forte e apertado abraço na árvore mais próxima e uma declaração de amor à natureza… Eu sei que algumas (POUCAS) correntes dentro da educação ambiental prezam por uma crítica com alguma qualidade, mas a média está péssima, deplorável.
Floresta comercial: deserto verde. No Brasil oriental, em geral, de eucalipto de São Paulo pra cima, e de Pinus no Rio Grande do Sul, ambas exóticas invasoras e, claro, sendo monoculturas, não têm NADA que se possa relacionar com as florestas brasileiras.
“Pegada de carbono”: é uma expressão de algum marketeiro genial (foda-se se ele é formado ou não em biologia!), que conseguiu reduzir toda a calamidade na qual se encontram TODOS os ecossistemas do planeta em UMA ÚNICA MOLÉCULA! Um verdadeiro alquimista do século XXI, transformando a destruição do planeta provocada pelas relações de produção capitalistas em uma cruzada CONFORTÁVEL contra a quantidade de carbono que liberamos anualmente! ❤
Serviços prestados pelos seres vivos: seres vivos só têm importância na medida em que produza lucros. Aliás: se são “serviços”, podem ser “dispensados” assim que possível, como tem sido em alguns lugares do mundo, por exemplo, onde as abelhas morreram em tanta quantidade que é preciso contratar trabalhadores humanos para fazerem polinização manual. Recentemente estão colocando a alternativa de construir micro-robôs pra fazerem isso no lugar das abelhas. A mensagem, apesar de discreta, é clara por parte das forças capitalistas: se as abelhas forem extintas, nossos lucros não sofrerão diminuições! Usei o exemplo com a abelha (que hoje é o mais gritante, mas muitos biólogos têm usado esse termo pra praticamente qualquer ser vivo que possa produzir lucros.
Sustentabilidade: o termo que estoura qualquer termômetro de irracionalidade. Vai desde diminuir o tempo no banho até evitar canudinhos descartáveis. Significa tudo e nada. Insustentável é permanecermos nessa posição acrítica sobre toda essa merda que absorvemos e repetimos sem pensar. Estamos na única civilização onde tudo o que é fabricado tem a DIMINUIÇÃO DA VIDA ÚTIL PREVIAMENTE PROJETADA. Um desperdício racionalizado _ e praticamente obrigatório para o sistema funcionar _ mas a sacolinha do supermercado é de pano, pra ser sustentável…
Algumas leituras para uma concepção mais “crítica” sobre toda a temática meio ambiente. Todos com links disponibilizando acesso aos textos.
TONET, Ivo. Educação e Meio Ambiente. Revista Rebela, v. 3, n. 5, 2015.
FOSTER, John Bellamy. A ecologia da Economia Política Marxista. Revista Lutas Sociais, São
Paulo, n.28, p.87-104, 1o sem. 2012.
MORENO, C.; SPEICH, D., & FUHR, L. A Métrica do Carbono: abstrações globais e
epistemicídio ecológico. Rio de Janeiro: Fundação Heinrich Böll, 2016. 80 p. Publicação
Série Ecologia, Volume 42.
VISENTAINER, Kátia. É o pós-boom, estúpido! Medium EmDefesaDosTerritórios, 30/Mar/
2018.
PATNAIK, Prabhat. Marx e o capitalismo. Revista eletrônica Resistir. Tradução
de JF. Nota do blog: apesar de eu não concordar com algumas coisas muito pontuais nesse texto, eu o coloco aqui apenas como uma muito breve introdução a categorias processuais básicas da crítica da Economia Política. Um aprofundamento (também introdutório) eu coloquei abaixo, com o livro de Netto & Braz.
NETTO, José Paulo & BRAZ, Marcelo. Economia política: uma introdução crítica. São Paulo
: Cortez, 2006. – (Biblioteca básica de serviço social; v. 1)
![]()
Este trabalho está licenciado sob uma Licença Creative Commons Atri-
buição 4.0 Internacional. Para ver uma cópia desta licença, visite http://
creativecommons.org/licenses/by/4.0/. Esta licença permite cópia (total
ou pacial), distribuição, e ainda, que outros remixem, adaptem, e criem
a partir deste trabalho, desde que atribuam o devido crédito ao autor(a)
pela criação original.
