Quem matou Marielle‭? (por Sergio Lessa)

Depende de de qual grau de verdade você deseja:‭ ‬os milicianos que estavam no carro,‭ ‬apenas aquele miliciano que puxou o gatilho‭; ‬Temer e os‭ ‬“golpistas‭”‬; ou,‭ ‬ainda,‭ ‬o sistema do capital como um todo.‭

A execução de‭ ‬Marielle‭ ‬é‭ ‬uma decorrência direta da crise geral em que vive o país.‭ ‬A munição utilizada,‭ ‬as pessoas envolvidas,‭ ‬o‭ ‬“método‭”‬ da execução,‭ ‬as circunstâncias de sua eleição e de suas denúncias‭ ‬contra os‭ ‬“milicianos‭”‬,‭ ‬a forma com se desenrola o‭ ‬post-festum‭ (‬a política federal cede lugar para a política militar,‭ ‬Temer cancela viagem ao Rio para não ser hostilizado,‭ ‬Rodrigo Maia posa de defensor de uma investigação séria,‭ ‬Pezão fica calado no calabouço do Palácio do Catete,‭ ‬a forma da cobertura jornalística da Globo,‭ ‬do Estadão e da Folha de São Paulo,‭ ‬a reação do PT,‭ ‬do PSOL e do PCB etc.‭) ‬– tudo se articula muito intimamente com os fundamentos da crise em que estamos engolfados.‭ ‬Portanto…

‭…‬ de‭ ‬onde vem a crise‭?

De novo:‭ ‬qual o grau de verdade desejado‭? ‬De fato,‭ ‬vem desde abril de‭ ‬1500,‭ ‬quando Cabral aportou na Bahia.‭ ‬O Estado burguês chegou no Brasil antes que aqui houvesse qualquer burguesia,‭ ‬o capitalismo aqui chegou pelas mãos da burguesia europeia e as nossas classes dominantes desde sempre foram sócias minoritárias na exploração dos trabalhadores.‭

A forma de exploração da força de trabalho,‭ ‬as instituições político-jurídicas e ideológicas que dela brotam etc.‭ ‬variam com o tempo‭ ‬– segundo as necessidades do capital internacional,‭ ‬predominantemente e,‭ ‬secundariamente,‭ ‬segundo as necessidades das classes dominantes brasileiras.‭ ‬Nessa história,‭ ‬o Estado tem um peso descomunal.‭ ‬Pois,‭ ‬como a mediação política da direta subordinação das classes dominantes locais ao capital internacional,‭ ‬termina sendo importantíssimo na organização da economia.‭ ‬As suas‭ ‬“políticas econômicas‭”‬ têm um papel central na produção de riqueza.‭ ‬Para citar alguns exemplos:‭ ‬o episódio Delmiro Gouveia no Segundo Império,‭ ‬a política de socialização das perdas na República Velha,‭ ‬os investimentos getulistas na infraestrutura como a Petrobrás e a CSN,‭ ‬os‭ ‬“50‭ ‬anos em‭ ‬5‭”‬ de Jucelino,‭ ‬o financiamento estatal para a entrada das multinacionais no país e para a concentração de terras no período da Ditadura Militar para culminar,‭ ‬no período petista,‭ ‬no assim dito‭ ‬“desenvolvimentismo lulista‭”‬.‭

O estamento burocrático-político

Como resultado desse papel do Estado na economia,‭ ‬desenvolveu-se um estamento burocrático encastoado nas altas esferas estatais e nas altas esferas da política que tem um peso econômico e político que,‭ ‬se varia segundo o período histórico,‭ ‬tem sido sempre muito grande.‭

O funcionamento desse estamento político-burocrático está,‭ ‬hoje,‭ ‬escancarado.‭ ‬Os casos da Odebrecht e da JBS são típicos.‭ ‬O toma-lá-dá-cá entre esse estamento e o capital privado,‭ ‬milhões em corrupção‭ ‬é a contrapartida da transformação desses empresários de nacionais em‭ ‬“multinacionais‭”‬ graças aos financiamentos ajeitados pelo estamento burocrático-político.‭ ‬Do‭ ‬“outro lado‭”‬,‭ ‬amealha-se a fortuna de milhões do filho de‭ ‬7‭ ‬anos de Temer‭! ‬O pagamento de propinas se tornou tão organizado e racional que a Odebrecht criou até mesmo um departamento para cuidar das mesmas,‭ ‬o famoso‭ ‬“Departamento de Operações Especiais‭”‬.‭ ‬Estradas,‭ ‬dormitórios e estádios para as Olimpíadas ou Copa do Mundo,‭ ‬compra de material didático ou de remédios,‭ ‬merenda escolar ou equipamento bélico‭ ‬–‭ ‬tudo‭ ‬é‭ ‬“azeitado‭”‬ pelas propinas,‭ ‬pela corrupção.

Hoje,‭ ‬em meio‭ ‬à crise,‭ ‬é possível delimitar os contornos desse estamento político-burocrático até os seus integrantes mais importantes:‭ ‬no Congresso,‭ ‬na ala mais tradicional,‭ ‬temos Cunha,‭ ‬Sarney,‭ ‬Jucá,‭ ‬Temer,‭ ‬os Maia‭ (‬pai e filho‭)‬,‭ ‬Moreira Franco,‭ ‬Carlos Marun ao lado dos novos integrantes,‭ ‬Lula,‭ ‬Aécio Neves,‭ ‬Genoíno,‭ ‬José Dirceu,‭ ‬Dilma,‭ ‬Garotinho,‭ ‬Cabral etc.‭; ‬do lado do Estado,‭ ‬Guido Mantega,‭ ‬Palocci,‭ ‬Paulo Bernardo,‭ ‬Paulo Rabelo de Castro,‭ ‬Almino Fraga,‭ ‬Graça Foster,‭ ‬a alta burocracia do BNDES,‭ ‬do Banco do Brasil,‭ ‬da Caixa Econômica,‭ ‬dos Fundos‭ ‬de Pensão,‭ ‬do Banco Central etc.‭ ‬Com uma vasta ramificação que passa dos centros decisórios nacionais aos Estados e Municípios.‭

Essa ramificação se generalizou.‭ ‬Em plena‭ ‬“farra dilmista‭”‬,‭ ‬até a liberação do pagamento para as empreiteiras locais da construção do‭ ‬“minha casa,‭ ‬minha vida‭”‬ em cidades pequenas dependia de pagamento de um‭ ‬“agrado‭”‬ ao gerente da Caixa Econômica local‭! ‬A construção da infraestrutura para as Olimpíadas e a Copa do Mundo,‭ ‬programas como‭ ‬“minha casa,‭ ‬minha vida‭”‬ etc.‭ ‬possibilitaram‭ ‬a esses ramos mais distantes de Brasília acesso a um volume de corrupção que nunca tinham antes visto‭ ‬– exemplar,‭ ‬nesse processo,‭ ‬é o caso do Rio de Janeiro.‭ ‬O poder econômico e político do estamento burocrático-político nunca foi tão forte e ramificado pelo país afora.

Esta situação só se tornaria um problema depois da crise de‭ ‬2008.‭ ‬Mas,‭ ‬até lá,‭ ‬não se‭ ‬reclamava nem da corrupção nem da bandalheira.‭

A genialidade política de Lula

Desde os‭ ‬últimos anos dos governos FHC,‭ ‬o Brasil foi se tornando um dos mais lucrativos investimentos para o grande capital.‭ ‬Com um governo‭ ‬“confiável‭”‬,‭ ‬uma classe operária‭ ‬“dócil‭”‬,‭ ‬uma vasta força de trabalho desempregada e submetida a uma elevada taxa de exploração e,‭ ‬além disso,‭ ‬com matérias-primas baratas e abundantes,‭ ‬energia subsidiada pelo Estado,‭ ‬terras virgens ainda a serem ocupadas etc.‭ ‬– com tudo isso o Brasil se converteu em um dos investimentos preferidos do grande capital financeiro.

A entrada desses capitais fez a festa dos governos petistas.‭ ‬Eram os anos em que planejavam permanecer no poder até‭ ‬2028‭ (‬Lembram-se do plano‭? ‬Depois de um governo Dilma,‭ ‬mais dois governos Lula‭?)‬.‭ ‬Foi o apogeu do‭ ‬“desenvolvimentismo petista‭”‬:‭ ‬estradas,‭ ‬casas,‭ ‬usinas hidroelétricas,‭ ‬biocombustíveis,‭ ‬pré-sal,‭ ‬etc.‭ ‬Com duas consequências.‭ ‬A primeira,‭ ‬o apoio incondicional da parcela da burguesia que se locupletava‭ (‬os Odebrechts da vida‭) ‬e,‭ ‬a segunda,‭ ‬a adesão ao bloco petista da parte majoritária e mais forte do estamento político-burocrático que mencionamos acima.‭ ‬As propinas que as inversões do Estado propiciavam comprariam a adesão desse estamento aos petistas.‭ ‬Cunha,‭ ‬Temer,‭ ‬Renã Calheiros,‭ ‬Jucá,‭ ‬Sarney,‭ ‬os Maia‭ (‬do Rio‭)‬,‭ ‬Collor etc.‭ ‬passam a descobrir as virtudes dos petistas.‭ (‬Tal como hoje Paulo Paim,‭ ‬deputado federal pelo PT,‭ ‬reconhece hoje os méritos de Collor‭)‬.

O restante da burguesia,‭ ‬ainda que não diretamente favorecida pelos investimentos estatais,‭ ‬também apoiava o governo petista,‭ ‬por duas razões.‭ ‬A primeira,‭ ‬porque o aquecimento da economia também aquecia seus negócios.‭ ‬A segunda,‭ ‬porque isenções e mais isenções de impostos impulsionavam indústrias-chave,‭ ‬como a automobilística e a da‭ ‬“linha branca‭”‬ (geladeiras,‭ ‬fogões etc.‭)‬,‭ ‬a extração de minérios e a exportação de matérias-primas e assim por diante.

Como bem-vindo efeito colateral desse toma-lá-dá-cá,‭ ‬o aquecimento‭ ‬da economia gerava empregos e melhorava a sorte de setores significativos da classe média.‭ ‬O bolsa família e programas congêneres davam a impressão‭ ‬– falsa impressão‭ ‬– de uma distribuição de rendas.‭ ‬O‭ ‬aumento dos salários dos professores universitários comprou o silêncio,‭ ‬quando não o apoio entusiasta,‭ ‬desse importante setor‭ ‬“formador de opinião pública‭”‬,‭ ‬etc.,‭ ‬etc.

Foi assim que Lula se tornou o preferido de Obama,‭ ‬do conjunto do capital,‭ ‬do agronegócio e do conjunto dos trabalhadores.‭ ‬Era uma unanimidade nacional‭! ‬Como duvidar que esse‭ ‬“simples operário‭”‬ fosse,‭ ‬de fato,‭ ‬um‭ ‬“gênio da política‭”‬,‭ ‬um‭ ‬“estadista de porte internacional‭”‬?

Foi nesse clima de‭ ‬“felicidade geral‭”‬ que os petistas acrescentaram ao‭ ‬estamento político-burocrático uma sua contribuição específica:‭ ‬a burocracia sindical.‭ ‬A aristocracia operária,‭ ‬base social e política da burocracia sindical,‭ ‬passou a ser sócia minoritaríssima na repartição da corrupção.‭ ‬Milhares de cargos para sindicalistas foram criados no Estado,‭ ‬os fundos de pensão passaram a ter nos sindicalistas diretores e dirigentes de peso,‭ ‬foi retirada a fiscalização do TCU das contas das centrais sindicais e,‭ ‬então,‭ ‬a farra sindical com dinheiro do Estado se tornou oficial.

Tudo parecia indicar que a estratégia petista daria certo:‭ ‬nada ameaçava a permanência de Lula em Brasília por mais tempo que Getúlio Vargas no Catete.

A crise de‭ ‬2008‭ ‬pôs tudo a perder.

Ao se instalar a crise,‭ ‬era notório que terminara a fartura de recursos do período imediatamente anterior.‭ ‬Quem pagaria pela crise‭?

Não dava mais para agradar a todos,‭ ‬alguém tinha que perder.‭ ‬A pressão subiu entre as camadas dirigentes.‭

A parcela da burguesia que não se reproduz‭ ‬“mamando nas tetas do Estado‭”‬,‭ ‬como diz Gaspari,‭ ‬passou a precisar do‭ ‬“apoio do Estado‭”‬ para atravessar a crise.‭ ‬Tinha,‭ ‬para isso,‭ ‬que diminuir a parcela da riqueza abocanhada pelo estamento político-burocrático‭ (‬os números não são seguros,‭ ‬mas fala-se que‭ ‬46%‭ ‬do todos dos investimentos no país vinham do Estado e geravam propinas‭; ‬alguns cálculos indicam que R$‭ ‬600‭ ‬milhões passam diariamente‭ ‬às mãos do estamento político-burocrata via corrupção‭)‬.‭

Frente‭ ‬à crescente pressão e avaliando equivocadamente que a crise seria passageira,‭ ‬os petistas‭ ‬cometeram‭ ‬seu maior erro estratégico.‭ ‬Decidiram privilegiar aqueles aliados que,‭ ‬julgavam,‭ ‬seriam os mais fiéis,‭ ‬pois mais dependentes do Estado.‭ ‬O estamento político-burocrático,‭ ‬evidentemente.‭ ‬Em seguida,‭ ‬os setores da burguesia mais dependentes das encomendas estatais‭ (‬as grandes empreiteiras,‭ ‬a construção civil,‭ ‬uma parte do agrobusiness e o capital interessado nos grandes eventos‭)‬.‭ ‬E,‭ ‬por fim,‭ ‬da burocracia sindical,‭ ‬a CUT e a central do PC do B.‭ ‬Avaliavam que,‭ ‬com esse‭ ‬“arco de alianças‭”‬ garantiriam apoio suficiente no Congresso e entre o empresariado para sobreviver‭ ‬à crise‭ ‬– que,‭ ‬repetimos,‭ ‬na avaliação deles,‭ ‬seria curta.‭ ‬Foi assim que Temer virou vice-presidente.

Erro mortal‭! ‬Deixaram fora do poder todo o restante do grande capital.‭ ‬Metalurgia,‭ ‬eletro-eletrônica,‭ ‬papel e celulose,‭ ‬química,‭ ‬automobilística etc.‭ ‬etc.‭ ‬– ou seja,‭ ‬praticamente todo o grande capital industrial‭ ‬– mais a maior parte dos bancos,‭ ‬do comércio e uma parte do agrobusiness.‭ ‬A estratégia petista formou contra ela‭ ‬“um arco de alianças‭”‬ impossível de ser derrotado.‭ ‬O fim do petismo era questão de tempo.

Intensificaram-se as denúncias de corrupção,‭ ‬a Lava a Jato entrou em ação com o apoio dos‭ ‬órgãos de imprensa mais importantes‭; ‬Moro se tornou personalidade internacional e vários dos operadores chaves do estamento político-burocrático e vários dos empresários do integrantes do‭ ‬“bloco petista‭”‬ foram para a cadeia.‭ ‬A Fiesp,‭ ‬a Febrabam,‭ ‬uma enorme quantidade de entidades patronais,‭ ‬entraram agressivamente em campo.‭ ‬Publicaram manifestos e manifestos contra o governo,‭ ‬organizaram manifestações,‭ ‬conspiraram o quanto podem.‭ ‬A luta era pra valer entre estes setores da burguesia e o estamento político-burocrático.‭

Foi para desmontar o esquema articulado a partir do Planalto que veio o impeachment da Dilma.‭ ‬As‭ ‬“pedaladas fiscais‭”‬ foram só o pretexto:‭ ‬o PT se tornara um elo decisivo da corrupção que concentrava os recursos do Estado no estamento político-burocrático e nos setores do capital eleitos pelos petistas como seus aliados preferenciais.‭

O desenvolvimento da crise política a partir de então foi marcado pela dissolução do‭ ‬“bloco petista‭”‬ no poder.‭ ‬Os primeiros a abandonar o barco foram os‭ ‬“donos do Congresso‭”‬.‭ ‬Velhas raposas,‭ ‬burocratas e políticos de décadas,‭ ‬que conhecem as mazelas e os meandros‭ ‬do poder estatal,‭ ‬perceberam que era melhor negociar com o grande capital do que enfrentá-lo.‭ ‬Mas negociar a partir de uma posição de força,‭ ‬visando a sobrevivência do estamento político-burocrático.‭ ‬Temer,‭ ‬aliado de Cunha,‭ ‬ungido vice-presidente por Lula‭ ‬para‭ ‬“garantir‭”‬ o apoio do Congresso,‭ ‬entrega a cabeça de Dilma para o grande capital.‭

Logo foram os‭ ‬“companheiros‭”‬ da CUT e dos sindicatos que mostraram o quanto vale sua lealdade.‭ ‬Fizeram manifestações contra o impeachment na medida exata para que não‭ ‬fossem acusados de‭ ‬“cúmplices‭”‬ dos‭ ‬“golpistas‭”‬ e,‭ ‬também na medida exata para que as manifestações não inviabilizassem o impeachment da‭ ‬“companheira Dilma‭”‬ (do mesmo modo como têm feito manifestações‭ ‬“contra‭”‬ a reforma trabalhista e‭ ‬“contra‭”‬ a reforma da previdência,‭ ‬em nossos dias‭)‬.

Sobrou para o PT o apoio do MST apelegado e das pesquisas de opinião pública que colocam Lula como o favorito para as eleições deste ano.

A disputa no interior do estamento político-burocrático também se acentuou.‭ ‬Temer teve que pagar literalmente bilhões para os congressistas não entregarem sua cabeça‭ ‬à justiça.‭ ‬Alguns setores vão perdendo a disputa‭ (‬por exemplo,‭ ‬a‭ ‬“sucursal‭”‬ do Rio de Janeiro do esquema das propinas‭)‬,‭ ‬mas quem‭ ‬é mais rapidamente expulso da festa‭ ‬é a burocracia sindical que,‭ ‬lembremos,‭ ‬foi trazida ao‭ ‬“poder‭”‬ pelos petistas.‭ ‬A reforma sindical inclui o fim do imposto sindical e fala-se no retorno da fiscalização do TCU sobre as verbas transferidas‭ ‬às centrais sindicais pelo Estado.

A burocracia sindical sente o golpe e passa a negociar:‭ ‬promete se comportar não agitando as massas contra o impeachment da Dilma e,‭ ‬depois contra as reformas trabalhista e previdenciária.‭ ‬Topa perder,‭ ‬desde que não‭ ‬“em demasia‭”‬.‭ ‬Com isso dá um tiro em seu próprio pé:‭ ‬sem o apoio das massas nas ruas contra as reformas,‭ ‬também não tem força para negociar o que gostaria.‭ ‬Perde o imposto sindical não apesar,‭ ‬mas porque se‭ ‬“comportou‭”‬ na defesa dos trabalhadores.‭

A‭ ‬“ofensiva‭”‬ de Temer

Acuado,‭ ‬o‭ ‬estamento político-burocrático fez valer seu peso histórico.‭

Através de manobras e contramanobras,‭ ‬de vai-e-vens,‭ ‬de alianças e traições,‭ ‬de delações premiadas e morte de testemunhas,‭ ‬de compras de falso testemunhos e esquemas milionários,‭ ‬como o de Cunha,‭ ‬para manter peças-chave de boca fechada,‭ ‬etc.,‭ ‬o estamento burocrático-político se reorganizou sob Temer e Rodrigo Maia‭ (‬presidente da Câmara dos Deputados‭)‬.‭ ‬Então,‭ ‬fez perceber aos do bloco‭ ‬“da oposição‭”‬ que a‭ ‬única alternativa‭ ‬é a negociação.‭

Eles aceitam rifar o governo petista,‭ ‬através do impeachment da Dilma‭; ‬topam reduzir o nível da corrupção‭ (‬isto‭ ‬é,‭ ‬a parcela da riqueza nacional que fica com eles‭); ‬topam aprovar no Congresso legislações impopulares‭ ‬–‭ ‬desde que não seja colocado em risco a sua própria sobrevivência.‭ ‬Aceitam até mesmo que alguns dos seus sejam presos‭ (‬Cunha,‭ ‬Garotinho,‭ ‬Cabral etc.‭) ‬desde que a estrutura de poder ao redor de Cunha,‭ ‬Temer,‭ ‬Maia,‭ ‬Jucá,‭ ‬etc.‭ ‬se mantenha mais ou menos intacta.‭ ‬Vão vendendo caro cada reforma que o capital necessita:‭ ‬desde a flexibilização da entrada de capital estrangeiro na Petrobrás e nos campos do pré-sal,‭ ‬no início do governo Temer,‭ ‬até a reforma trabalhista do ano passado.

A resistência do estamento político-burocrático teve efeito e,‭ ‬em alguns poucos meses,‭ ‬o grande capital começou a mudar a sua postura.‭

Logo após o impeachment da Dilma,‭ ‬discutia-se abertamente se não seria o caso de se botar Temer abaixo,‭ ‬também.‭ ‬Jornais como o Estadão e a Folha eram claramente simpáticos a essa tese.‭ ‬A resistência do estamento político-burocrático os fez enxergar a realidade:‭ ‬a não ser por um golpe,‭ ‬não havia como se livrar do Congresso tal como ele‭ ‬é hoje.‭ ‬As tentativas de impeachment do Temer não dão em nada,‭ ‬ele resiste‭ ‬às pressões‭…‬ O Estadão‭ ‬é o‭ ‬primeiro a mudar de posição:‭ ‬se Temer‭ ‬é ruim,‭ ‬a alternativa de um golpe‭ ‬é ainda pior.‭ ‬Logo em seguida,‭ ‬o Estadão começou a defender a limitação da Lava a Jato e,‭ ‬num momento posterior,‭ ‬passa a atacar o judiciário no que este tem de calcanhar de Aquiles:‭ ‬os salários e privilégios.‭ ‬O mote do Estadão passa a ser:‭ ‬não‭ ‬é possível jogar todos os políticos nas prisões de Curitiba,‭ ‬isto seria ir longe demais.‭ ‬Há que se colocar um limite‭!

Foi então que estamento burocrático-político colheu sua maior vitória:‭ ‬todas as pressões do grande capital‭ ‬“de oposição‭”‬ para que o Congresso aprovasse a reforma da previdência,‭ ‬fracassam‭! ‬Os políticos e burocratas estão mostrando sua força e,‭ ‬a burguesia,‭ ‬arrega‭! ‬Não se fala mais,‭ ‬então,‭ ‬em derrubar Temer,‭ ‬mas discute-se qual o candidato a substituí-lo a partir de‭ ‬2019.‭ ‬Há,‭ ‬de fato,‭ ‬parece reconhecer o grande capital‭ ‬“da oposição‭”‬,‭ ‬que negociar com o estamento político-burocrático,‭ ‬derrotá-lo‭ ‬não seria possível.‭

A intervenção no Rio de Janeiro

Sentindo-se fortalecido,‭ ‬Temer decidiu passar‭ ‬à iniciativa.‭ ‬Promoveu a intervenção no Rio e se declarou candidato‭ ‬à eleição presidencial.‭ ‬Do alto de seus‭ ‬90%‭ ‬de rejeição,‭ ‬sabe que o decisivo para as eleições não‭ ‬é o apoio popular.‭ ‬A intervenção,‭ ‬como disse alguém,‭ ‬foi um‭ ‬“golpe de mestre‭”‬.‭ ‬Temer‭ ‬posou de‭ ‬sheriff nacional contra o crime e trouxe para o seu lado o prestígio e o apoio da burocracia fardada.‭ ‬Como parte do acordo com os militares,‭ ‬Temer entregou a eles diversos cargos importantes no governo,‭ ‬inclusive‭ ‬o Ministério da Defesa,‭ ‬desde‭ ‬1988‭ ‬ocupado sempre por um civil.

A situação no Rio de Janeiro‭ ‬é apenas mais grave e aguda do que a situação no restante do país.‭ ‬Está longe de ser uma situação‭ ‬única e exclusiva.‭ ‬Desde há muito o poder do crime organizado e desorganizado constitui um dos importantes fatores da‭ ‬“governabilidade‭”‬:‭ ‬sem um acordo com o crime,‭ ‬não apenas o controle da violência,‭ ‬mas o controle do próprio crime torna-se inimaginável.‭ ‬Nem a Ditadura Militar conseguiu quebrar a força do jogo do bicho.‭ ‬De lá para cá,‭ ‬com as drogas e o comércio de armas,‭ ‬a situação apenas se agravou.

Ao longo dos anos foi sendo construindo um modo de convivência:‭ ‬dentro de limites e em‭ ‬áreas geográficas delimitadas,‭ ‬o tráfico de drogas e armas,‭ ‬prostituição e jogo do bicho são permitidos pelos governantes.‭ ‬Mas a lógica não se interrompe aí.

Tal como o estamento político-burocrático que,‭ ‬a partir de seu poder no Estado,‭ ‬cobra sua taxa de corrupção,‭ ‬os policiais também cobram dos criminosos sua‭ ‬“caixinha‭”‬.‭ ‬Esta‭ ‬última nada mais‭ ‬é que a versão pobre do esquema de corrupção administrado pelos Temers e Cunhas da vida.‭ ‬Há dados que indicam que a‭ ‬“caixinha‭”‬ era,‭ ‬há alguns anos,‭ ‬quase o dobro do total que o Estado do Rio de Janeiro então pagava de salários aos policiais.‭

Além disso,‭ ‬o capital envolvido nas drogas e armas precisa ser‭ ‬“lavado‭”‬:‭ ‬a conivência,‭ ‬se não a participação ativa,‭ ‬das altas autoridades da segurança e,‭ ‬por extensão,‭ ‬dos governos estaduais e municipais,‭ ‬é um pressuposto indispensável para esta lavagem.‭ ‬A qual,‭ ‬ainda,‭ ‬interessa a uma enorme quantidade de doleiros e alguns grandes banqueiros.‭ ‬Essa enorme base social‭ ‬– traficantes,‭ ‬policiais,‭ ‬burocratas de todos os escalões do Estado,‭ ‬banqueiros,‭ ‬doleiros e,‭ ‬não nos esqueçamos,‭ ‬de juízes e procuradores‭ ‬– possuem uma força de pressão considerável sobre os governos cariocas os quais,‭ ‬por‭ ‬sua vez,‭ ‬não se fazem de rogados em ceder a estas pressões desde que,‭ ‬claro,‭ ‬recebam sua parte do butim.

Esse esquema estadual apenas pode se manter com uma articulação com o esquema nacional.‭ ‬Os no poder em Brasília devem receber‭ ‬“o seu‭”‬ para não apoiarem as forças de‭ ‬“oposição‭”‬ no Estado,‭ ‬por sua vez os‭ ‬“de Brasília‭”‬ devem,‭ ‬pela alocação das verbas federais,‭ ‬abrir oportunidades para que o estamento político-burocrático nos Estados se locuplete com a corrupção decorrente.‭ ‬O Pan-Americano e as Olimpíadas que não me deixem mentir.‭ ‬Garotinho e Cabral são apenas os casos mais emblemáticos dessa articulação entre a corrupção federal,‭ ‬a corrupção carioca,‭ ‬os traficantes e os milicianos.

Esse esquema se equilibrava precariamente,‭ ‬mas se equilibrava,‭ ‬até há alguns‭ ‬anos atrás.‭ ‬Havia momentos de maior tensão e violência intermediado por outros de pacificação aparente.‭ ‬Mas nada semelhante ao que hoje vivemos no Rio de Janeiro.‭ ‬A crise econômica e o agravamento das tensões sociais‭ ‬é o pano de fundo desta explosão.‭ ‬A desarticulação do bloco petista no poder,‭ ‬as disputas no interior da burguesia e do estamento político-burocrático,‭ ‬a Lava a Jato e suas consequências etc.‭ ‬são fatores que também contribuíram para romper o antigo equilíbrio.

A causa imediata e direta desta explosão‭ ‬é a disputa entre os milicianos e os traficantes pelo controle de‭ ‬áreas inteiras da cidade.‭ ‬Em poucas palavras,‭ ‬grupos de policiais descobriram que podiam disputar com os traficantes o controle de‭ ‬áreas de periferia da cidade.‭ ‬Tal como os traficantes,‭ ‬a partir deste controle eles vendem serviços‭ ‬à população,‭ ‬vendem‭ ‬“segurança‭”‬ acima de tudo e,‭ ‬ainda,‭ ‬podem cobrar pedágio dos traficantes para que‭ ‬“operem‭”‬ nas‭ ‬áreas sob seu controle.‭ ‬Essa‭ ‬é uma atividade muito mais lucrativa que simplesmente a tradicional‭ ‬“caixinha‭”‬.

Além do conflito entre policiais e traficantes,‭ ‬agora surge um novo,‭ ‬mais agudo e violento conflito,‭ ‬entre os milicianos e os traficantes.‭ ‬Diferente do confronto policiais-traficantes,‭ ‬temos agora um conflito entre dois grupos armados ilegais e semiclandestinos:‭ ‬um conflito para além do Estado.‭ ‬As UPPs serviram de fachada legal para o estabelecimento das milícias‭ ‬– e não passaram muito disto.

A intervenção tem uma direção precisa:‭ ‬trata-se de combater o crime organizado e não as milícias.‭ ‬A‭ ‬corrupção entre as forças de repressão,‭ ‬desde juízes e procuradores até o policial mais modesto,‭ ‬não será alvo da ação das Forças Armadas.‭ ‬Afinal,‭ ‬direta ou indiretamente,‭ ‬eles são sócios e aliados do esquema de corrupção que articula,‭ ‬em infinitos canais,‭ ‬a podridão de Brasília com a violência nas periferias das grandes cidades.

Foi a intervenção que criou as condições para a execução de Marielle Franco.

A execução

No ambiente social do Rio de Janeiro,‭ ‬não há mais lugar para o meio-termo.‭ ‬Não por uma questão de radicalização das opiniões,‭ ‬mas pela radicalização da situação real.‭ ‬No conflito entre milicianos e traficantes,‭ ‬quem apoia os direitos humanos está ao lado dos traficantes contra os‭ ‬“de bem‭”‬,‭ ‬como os milicianos se autodenominam.‭ ‬E isto independente‭ ‬do desejo ou da inclinação das pessoas,‭ ‬tem um elevado grau de veracidade.‭ ‬Quem milita em uma favela como a Maré sabe muito bem que não‭ ‬é possível uma atuação qualquer sem a anuência do chefe do pedaço,‭ ‬traficante ou miliciano.‭ ‬Não‭ ‬é improvável que a vereadora do PSOL tenha recebido,‭ ‬sem que tenha solicitado ou que tenha negociado,‭ ‬o apoio eleitoral do tráfico da Maré.‭ ‬E,‭ ‬a bem da verdade,‭ ‬seja lembrado que a maior parte de seus votos veio das regiões mais ricas da cidade e,‭ ‬não,‭ ‬das favelas.

Com a intervenção,‭ ‬os milicianos entenderam o recado:‭ ‬é a oportunidade para ocupar as‭ ‬áreas que o Exército vai tomando do crime organizado,‭ ‬é o momento de se expandirem e,‭ ‬por isso,‭ ‬é também a hora de calar quem denuncia a expansão dos milicianos e as suas consequências.‭ ‬Os democratas e defensores dos direitos humanos não são apenas adversários ideológicos,‭ ‬são também aqueles que‭ ‬“atrapalham os negócios‭”‬.‭ ‬É,‭ ‬hora,‭ ‬além‭ ‬disso de acertar velhas contas.

Quem executou Marielle‭? ‬Temer com sua intervenção,‭ ‬pra começo de conversa.‭ ‬Mas só para começo,‭ ‬pois o fundo do poço‭ ‬é muito mais em baixo.‭ ‬Não‭ ‬é por acaso que,‭ ‬mais de‭ ‬10‭ ‬dias depois,‭ ‬apenas se sabe que vieram da Polícia Federal as balas do crime.‭ ‬E nada mais‭!

Enquanto isso‭…

Enquanto isso,‭ ‬o‭ ‬“arco de alianças‭”‬ na nossa pobre esquerda eleitoreira nada mais faz do que clamar por uma melhor e mais justa administração do‭ ‬único Estado que o capital pode nos oferecer neste país.‭ ‬Para essa esquerda,‭ ‬a solução não está em superar o capital,‭ ‬mas em administrá-lo com maior eficiência e justiça:‭ ‬elejam a nós que tudo isso será resolvido.‭ ‬Do PSOL ao‭ ‬PCB,‭ ‬do PC do B ao PSTU,‭ ‬do MST ao MTST,‭ ‬o clamor‭ ‬é um só:‭ ‬nos elejam‭!

Pobre essa esquerda que não consegue‭ ‬– nem nessas circunstâncias‭ ‬– ir além do horizonte eleitoreiro burguês.‭ ‬Mas há,‭ ‬para isso,‭ ‬uma razão de fundo:‭ ‬são também,‭ ‬ou gostariam de ser,‭ ‬financiados pelas verbas estatais.‭ ‬As mesmas verbas que servem‭ ‬à corrupção e,‭ ‬em outras mãos,‭ ‬executaram Marielle.‭ ‬Bem pesadas as coisas,‭ ‬são apenas a ala esquerda do Partido da Ordem‭ ‬– se‭ ‬é‭ ‬que o Partido da Ordem tem uma ala esquerda.

Texto disponibilizado pelo autor aqui.

Site do autor: http://sergiolessa.com.br/index.html

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s