Experiência soviética: porque tantos militantes fazem uma defesa acrítica do teor de pleno socialismo da URSS?

A clássica repetição da história mencionada por Marx não é, obviamente, uma repetição ipsis literis… É uma aparente repetição, com o acréscimo inevitável de elementos novos, que mudam totalmente a essência do conteúdo dessa repetição.

Pelos mais diversos motivos (porém, na raiz da maioria desses motivos está a falta de estudos de grande parte dos militantes que se pretendem vanguarda), as militâncias revolucionárias se pautam pela experiência soviética como um modelo, em seus mais diversos aspectos.

Porém, o materialismo dialético, que é o método marxiano de análise da realidade, não se presta a “modelos”, e, a menos que estivéssemos falando de uma nação que tivesse tido o mesmíssimo processo histórico da Rússia imperial, com o mesmo contexto internacional, etc etc etc, um modelo desses não cabe de forma alguma.

Consequentemente, a insistência em usarem a União Soviética como um modelo _ das mais diversas maneiras: modelo de revolução, de funcionamento estatal etc _ apenas prova a pouca proximidade com o conhecimento da realidade concreta, tanto da Rússia pré-revolução quanto da nossa própria.

A Rússia pré-revolucionária era quase totalmente agrária, com fortes resquícios feudais em pleno funcionamento. Logo, suas forças produtivas não davam conta de fazer o mínimo esperado do intuito de uma revolução socialista: realizar a plena abundância, que faz com que os seres humanos não disputem os recursos materiais entre si, e não faça sentido haver classes sociais; eliminar a relação alienada dos seres humanos com o trabalho e com a propriedade privada, que gera relações sociais rebaixadas em relação ao potencial humano que todos temos; de tabela, eliminaria o patriarcado, essa relação derivada da propriedade privada contra a qual as feministas marxistas lutam conjuntamente contra o capital.

Essa deficiência ESSENCIAL para a realização plena do programa comunista vai repercutir pesadamente sobre os rumos da revolução bolchevique. Para uma descrição fartamente documentada do que foi esse processo, leia “Mulher, Estado e Revolução“, de Wendy Goldman; ela mostra por ‘A+B’ as pesadas consequências —  objetivas e subjetivas —  da realização da revolução nas condições em que se encontrava a Rússia de 1919, dando obviamente destaque aos efeitos desse processo sobre as mulheres e crianças.

Para explicar o fim da União Soviética, os defensores acríticos da experiência soviética pautam-se, via de regra, por um “golpe”. Oras, um “Estado socialista”, derrubado por um único homem e que retorna completamente ao capitalismo sem uma prolongada e terrível guerra civil, é muito de se estranhar MESMO, supondo que o Estado soviético estivesse DE FATO em poder dos trabalhadores… Resumindo: como pode algo que hoje pregamos (nós, socialistas) como sendo a inversão do sistema atual _ o socialismo como sendo o governo de muitos sobre poucos _ ser destruído/desmontado por poucos contra muitos? Esses defensores acríticos balbuciam palavras ininteligíveis.

Eu concordo com o José Paulo Netto quando ele diz que a revolução bolchevique “congelou” na TRANSIÇÃO PARA o socialismo _ e o que pára na transição não chegou LÁ. Mas, bastaria ler “O Estado e a Revolução”, de V. Lênin e comparar com o Estado soviético; os revolucionários brasileiros deveriam prestar atenção mais cuidadosa a esse livro, ao meu ver.

E nada da crítica do “congelamento na transição” precisa esconder o fato de que não havia condições materiais para fazer a transição; na verdade só se entende essa crítica entendendo a FALTA das condições materiais para essa transição.

E nada nessa crítica subentende-se (também concordando com o J. P. Netto) que a experiência soviética não deveria ter ocorrido: ela foi a experiência que mostrou à humanidade, definitivamente e sem sombra de dúvidas, a possibilidade da humanidade dirigir sua própria história, mesmo tendo tomado um rumo problemático depois.

A defesa incondicional da experiência soviética como tendo sido uma experiência socialista plena tem MUITO MAIS A VER com o que está em jogo nesse exato momento (o programa socialista que os revolucionários brasileiros estão defendendo) do que apenas o caráter do estado soviético em si. Porque o que está em disputa entre as vanguardas agora é se a revolução pode ou não nos conduzir para uma situação futura de ausência de Estado (campo nos quais estão Mészáros e os alinhados com ele, {acredito que} Mascaros, uma porrada de lukácsianos, os trotskistas e os anarks) e aqueles que defendem que o fim do Estado é uma utopia que não se deve nem mesmo aventar a hipótese (os que se alinham ao Losurdo, Nildo Ouriques, “nazbol’s” e todos os que têm uma relação mais afetiva ou pragmática do que crítica de fato para com a experiência soviética); importante: é uma diferença que eu tô colocando aqui de um ponto de vista programático. Daqui prá frente esses dois campos tendem a se acirrar, e desde já é visível que entre os marxistas o segundo campo está e será muito mais preferido.

E essa preferência não é algo espantoso, dado o baixíssimo entendimento que uma grande parcela de militantes possuem quanto a o que defendem, de fato. Conhecer ou não a realidade social em suas instâncias mais profundas é o que decide muito da posição dos militantes. Por isso é imprescindível aprofundar constantemente o estudo, e não fazer uma defesa “ideológica” sem fundamento na realidade, o que será, com certeza desastroso. A vanguarda revolucionária deve ter o estudo como uma prioridade, não como algo secundário.

Por exemplo: a dificuldade intransponível para os russos revolucionários realizarem o programa socialista proposto era o baixo grau de desenvolvimento das forças produtivas russas. O Brasil definitivamente NÃO ESTÁ EM TAIS CONDIÇÕES ATUALMENTE! As forças produtivas aqui estão plenamente desenvolvidas, como descrito em um detalhado texto do camarada Edmilson Costa. E, do ponto de vista subjetivo, o terreno está sendo materialmente preparado pela paulatina eliminação do pequeno produtor, que está sendo transformado em operário em fábricas distribuídas no interior do Brasil afora; o pequeno produtor, um clássico lutador contra as revoluções socialistas por conta de sua consciência pequeno burguesa de defesa feroz de sua pequena propriedade rural, não será mais um impedimento substancial à uma possível revolução brasileira, como mostra Sergio Lessa aqui, sendo esse segmento da sociedade paulatinamente transformado em operários livres de meios de produção Brasil afora, sob brutal exploração capitalista. No âmbito subjetivo, isso muda muita coisa.

Logo, tanto as condições objetivas quanto subjetivas serão TOTALMENTE diferentes das que encontraram os revolucionários russos no início do século XX! Curiosamente, agora que temos efetivamente as condições para realizar o programa socialista integralmente, a maior parte da vanguarda não conhece ou não quer realizar o programa socialista original, desejando antes repetir passo-a-passo o que foi realizado na URSS. De fato, não tem como não concordar que

a história se repete: a primeira vez como tragédia, a segunda vez como farsa

 

Sugestão de leitura: O revolucionário e o estudo: porquê não estudamos? Lessa.

Mészáros e a crítica à experiência soviética, Paniago.

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