Como destruir um inimigo sem ter que debater suas idéias, conceitos e argumentos

Vez ou outra um indivíduo ou organização precisa _ e, cedo ou tarde acabam se revelando motivados por razões materiais _ destruir um oponente; não necessariamente _ ou, dada a impossibilidade da_ destruição física, promove uma destruição simbólica _ primeiro dentro do próprio grupo (o grupo precisa, antes de “destruir os deuses falsos”, ter plena convicção de quais são os deuses falsos), e depois ao mundo. Embora essa prática seja recorrente em vários ambientes, o local icônico será sempre aquele com forte teor religioso. Por exemplo: se todas as religiões cristãs estão centradas em agradar ao mesmo Deus “verdadeiro” através dos mesmos “escritos sagrados”, porquê haver conflitos de morte entre umas e outras? É que embora Deus seja algo intangível, o mesmo não se pode falar de seus adeptos, os quais tanto eles _e todas as consequências muito úteis de se ter um grande público cativo_ quanto suas doações monetárias são razões bastante concretas para se desejar destruir a quem quer que, mesmo remotamente, venha a prejudicar isso.
Portanto, já temos o ambiente. Agora seremos um pouco mais específicos, como se fosse um estudo de caso: as Testemunhas de Jeová.

Faça uso e abuse de falácias

Já que não é desejável contrapor argumentos à produção do inimigo, as falácias ganham uma enorme importância. Embora algumas já sejam relativamente conhecidas da internet, outras nem tanto. Quais e formas de uso dependerá sempre do alvo a ser atingido. Abaixo vão algumas poucas:

Ad hominem

Essa com certeza é a mais famosa falácia, exatamente pela frequência com que é usada. Geralmente se recorre a ela para se utilizar de algum teor emocional sobre a audiência em relação ao inimigo sobre algo que vc sabe que é sensível ao seu público. Por exemplo: se alguém argumentar à uma TJ a respeito da relação entre disparidade social e violência, independentemente da qualidade do argumento, se esse alguém for espírita, é motivo o bastante para que essa TJ recuse a verdade contida em seus argumentos. Aqui um preconceito prévio _criado a partir daqueles livros e revistas_ se torna gatilho para uma reação de repulsa.
Mas também é muito usada quando o seu argumento é tão ruim que não é uma opção produtiva qualquer combate à base de argumentação: a qualidade da produção intelectual do inimigo não importa aqui, embora, se for possível reforçar essa destruição através de algum erro _ pequeno ou não_ em sua obra, melhor ainda.

Espantalho

A criação do espantalho é imprescindível quando a sua própria argumentação, por si só, não tem força para derrubar a verdadeira argumentação do inimigo. Desta forma vc pode recorrer a uma menção distorcida ou um recorte descontextualizado. Ao “fabricar” um argumento ao qual vc pode combater (e não interessa que não seja o real argumento do seu inimigo; afinal os que te escutam já possuem confiança o bastante em vc para não desconfiarem que vc esteja distorcendo nada), o contra-argumento fica muito mais simples e fácil de criar. Vejamos um exemplo que o Jan Haugland reuniu, e que o blog do osarsif nos traz sob o título “Citações Fraudulentas no Livro A Vida — Qual a Sua Origem? A Evolução ou a Criação?”:

Citação “A Vida – Qual a Sua Origem? A Evolução ou a Criação?” (1985), p. 15:

4 A revista científica Discover (Descobrir) pôs a situação no seguinte pé: “A evolução … não está sob ataque apenas de cristãos fundamentalistas, mas também é questionada por cientistas de grande reputação. Entre os paleontólogos, cientistas que estudam os fósseis, há crescente discordância quanto ao conceito prevalecente do darwinismo.”

Fonte James Gorman, “The Tortoise or the Hare?” [A Tartaruga ou a Lebre?], Discover, outubro de 1980, p. 88:

“A brilhante teoria da evolução, publicada em 1859, teve um impacto impressionante sobre o pensamento científico e religioso e mudou para sempre a percepção do homem sobre si mesmo. Agora essa teoria reverenciada não está sob ataque apenas de cristãos fundamentalistas, mas também é questionada por cientistas reputados. Entre os paleontólogos, cientistas que estudam os fósseis, há crescente discordância quanto ao conceito prevalecente do darwinismo…. A maior parte do debate centra-se numa questão chave: O processo da evolução, de três biliões de anos, arrasta-se a um ritmo constante ou é marcado por longos períodos de inatividade pontuados por pequenas explosões de mudança rápida? A evolução é uma tartaruga ou uma lebre? A opinião de Darwin, amplamente aceite — segundo a qual a evolução processa-se de forma constante, rastejando — favorece a tartaruga. Mas dois paleontólogos, Niles Eldredge, do American Museum of Natural History [Museu Americano de História Natural] e Stephen Jay Gould, de Harvard, estão apostando na lebre.”

Nesse link onde o autor reúne várias citações fraudulentas do livro, notamos que se os autores dos livros das TJs ( chamados por elas de “escravo fiel e discreto” ) fizessem as citações corretamente ou expondo o inteiro contexto, mostraria a própria desonestidade dos autores e de forma alguma reforçaria o que eles estão ali defendendo. Importa muito, obviamente, que os leitores não tenham qualquer conhecimento bem fundamentado sobre evolução biológica darwiniana; sem isso, o livro em si não se manteria como “ferramenta de luta espiritual” desde a década de 80 até hoje entre eles (como se a ciência estivesse congelada de lá prá cá…).

No caso acima, o objetivo desses representantes de Deus é mostrar ao leitor que os próprios cientistas não têm muita confiança sobre a teoria da evolução, e a defendem mais por questão de fé do que por evidências. Oras, se é tudo questão de fé, fique com a fé baseada na bíblia!

Note que qualquer leitor da língua inglesa que veja essa citação pode ir diretamente na obra do autor e conferir; porém, pré-existe uma relação de confiança entre o leitor e vc, portanto, essa possibilidade é baixa. Ademais, mesmo que ocorra, vc já tem um enorme séquito que te defenderá de quaisquer prejuízos menores que alguém mais meticuloso venha a provocar.
Apelo ao ridículo

Depois de criar o espantalho com base na distorção da argumentação do inimigo, agora é hora de levar esse espantalho às consequências lógicas a que ele conduz. Com base nisso, fica fácil mostrar à sua audiência o quanto o seu inimigo defende coisas ridículas, mesmo ele realmente não defendendo nada daquilo que vc afirma.
Non sequitur

É tirar conclusões que não têm base no pressuposto anteriormente estabelecido. “Se a evolução biológica existe, logo a ética é inútil…”

A escolha da sua audiência

Isso é muito importante. Após a construção de um quadro terrível contra o seu inimigo, é essencial que se evite ao máximo iniciar a exposição das suas acusações junto daqueles que teriam a possibilidade de expôr as falácias da sua argumentação. Isso seria mortal ao seu objetivo de destruição plena do inimigo. É necessário antes criar um ambiente de plena saudação e louvor daquilo que vc afirma, como se fosse a própria revelação divina; um gigantesco consenso que force os indecisos todos na direção dos convictos. Na Roma Antiga, os senadores romanos pagavam aduladores para os aplaudirem quando terminassem de falar ao “povo”. Infelizmente, nem todo mundo tem recursos financeiros para usar dessa possibilidade; a quem enfrente esse problema, será interessante ter uma boa popularidade.
Porém, a audiência deve ter apenas uma vaga noção _ importante: uma VAGA noção; de forma alguma entender profundamente _ sobre quem está sendo combatido, e seus argumentos e produções. Seus erros e quaisquer distorções que sua obra tenha sofrido ou sua personalidade tenha reforçado devem ser maximizados por toda forma de exagero e distorção; esse ingrediente é essencial, afinal, caso entendessem plenamente a argumentação do seu inimigo, poderiam acabar concordando com ele E/OU percebendo que o que vc está construindo contra o inimigo é um monte de falácias, o que vc, obviamente não quer. O ambiente religioso fornece, nesse caso, todo o “hermetismo” necessário para que isso ocorra com uma forte aparência de naturalidade: nesse local, as leituras e estudos já são previamente direcionados para se ter uma visão de mundo relativamente homogênea entre os praticantes, onde os autores que colocam de fato os dogmas em dúvida já estão deformados através de comentadores de dentro do grupo que já os deturparam previamente. Perfeito.

Explore “falhas”, reais ou imaginárias, quanto a definições. Exemplo: quando uma Testemunha de Jeová fala sobre “serviço sagrado” e o cristão de quaisquer outras denominações falam de “serviço sagrado”, ambos estarão falando de coisas completamente diferentes. Porém, como a interpretação que as TJs fazem desse assunto deve contribuir para avançar na velha rinha da disputa de adeptos, do ponto de vista delas o único modo correto desses soldados de fé fazerem esse serviço sagrado é indo pregar as “boas novas de casa em casa e nas ruas”, tal qual elas mesmas fazem. Não adiantaria aos outros cristãos mostrarem na bíblia trechos de adoradores de Deus fazendo serviço sagrado cantando: do ponto de vista das TJs, apenas o serviço sagrado delas estará agradando a Deus, e o de nenhum outro grupo. Talvez seja necessário _ para fortalecer do ponto de vista do seu público a “verdade” da sua definição _ esconder da sua audiência o serviço sagrado idêntico (ou pelo menos com resultados semelhantes) realizado pelas outras denominações.

A mistificação da realidade joga aqui um papel importantíssimo: à medida que aumenta o número de adeptos, esforce-se em mostrar que esse aumento é óbvia e diretamente consequência das bênçãos divinas que o grupo, por ter defendido ferozmente àquela definição  de trabalho sagrado _ e praticado! _  agora alcança.

As TJs são também, bastante conhecidas por (do ponto de vista popular) “vender revistinhas”. As revistas e livros que elas distribuem são chamadas por elas de “alimento da parte do escravo fiel e discreto distribuído no tempo apropriado“. O dito “escravo” é um grupo de homens que moram no Brooklin, EUA, os quais decidem o que as TJs podem ou não ler/estudar. Qualquer autor que fuja em qualquer medida do que o “escravo” decidiu que é correto, será descrito como estando sob influência, direta ou indireta, de Satanás. Sob tal grau de restrição, as TJs se proíbem de ler absolutamente qualquer autor que faça qualquer gota de crítica à esta religião. Portanto, demonizar o inimigo é uma estratégia muito mais eficiente quando vc já tem seu público cativo de alguma maneira.

Fica claro, ao longo do acima explanado, que esse processo, ao se repetir ao longo do tempo, gerará um grupo cada vez mais pobre do ponto de vista intelectual. Como existe essa necessidade de manter um consenso, mesmo que artificial ou através de constrangimento, as leituras desaprovadas pelas hierarquias vão se tornando desconhecidas, ou, em uns poucos casos, os que são descobertos no ato herege da leitura destes, acaba expulso.

Note que se você questionar uma TJ sobre esse sistema de funcionamento, ela dirá que é uma forma superior e abençoada por Deus de se fazer as coisas, e a prova viva disso é que dessa forma ocorreram enormes aumentos numéricos de adeptos no mundo todo.

Seria possível, porém, manter a riqueza da diversidade de pensamento e ao mesmo tempo uma união interna dos adeptos? Com certeza não, se ao invés do argumento bem-embasado, o pensamento dos autores considerados “má influência” sofrerem o acima processo de estigmatização/destruição baixo e vil.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s