Resposta a um autodenominado “libertário” capitalista

1º “Se o trabalhador tudo produz, a tudo ele pertence.”–> Essa frase não é de Marx. Infelizmente até a própria esquerda não toma cuidado em separar o conteúdo do autor e a citação que ele faz de outros autores. Marx está analisando um programa político que defende esse trecho, o qual ele critica prá cacete.

A divisão do trabalho é, em si, um tema sobre o qual vc poderia meditar profundamente. A roupa que eu visto foi fabricada por um trabalhador, a máquina com a qual o trabalhador produziu minha roupa foi produzida por um trabalhador. O algodão com a qual minha roupa foi feita foi plantado, colhido, tratado por trabalhadores. A comida que como foi plantada, transportada e processada por trabalhadores. A água que bebo foi bombeada, tratada e canalizada por trabalhadores. O mundo funciona, não porque existem capitalistas, mas porque trabalhadores o fazem funcionar; o fazem funcionar, mas não usufruem dele plenamente, porque nascem, crescem e morrem trabalhando. Capitalistas apenas extraem riqueza dos trabalhadores; houve, num passado distante, um tempo em que os capitalistas realmente revolucionaram o mundo (não sem muita violência e roubo, importante frisar!), mas hoje ele são não apenas inúteis, mas prejudiciais. “Mas os capitalistas inventaram”… Pessoas inventaram o que quer que seja sempre baseado no que a humanidade já havia produzido antes. Até o ponto em que alguém esteja capaz de inventar alguma coisa útil, ela recebeu MUITO da humanidade, sem ter que pagar royalties por isso. A humanidade está inventando há centenas de milhares de anos sem precisar para isso dos capitalistas!

3º “Quando os trabalhadores e operários de uma grande e nova indústria chegam nela para trabalhar, o terreno, a planta edificada, e todos os equipamentos que se encontram nela, nada disso os operários pagaram”–> Vc não explicou de onde veio toda essa riqueza do capitalista que paga salário, compra terra, galpão, maquinário mais avançado, etc. No seu conceito, os capitalistas trabalharam bastante, décadas! prá conseguir esse dinheiro todo?

E mais uma vez: não foram os capitalistas que limparam o terreno, edificaram o galpão, construíram os equipamentos… Enfim: os capitalistas apenas acionaram esse joguinho fictício de compra-e-venda.

4º “o fato de que trabalhador x e y perderam seus empregos por causa disso não é uma coisa negativa, porque quando uma porta se fecha outra se abre.” Então, quando a gente olha os dados, não é isso o que encontra. Perceba, revista Valor, que indiscutivelmente não é de esquerda: “As interações entre inteligências artificiais e a proliferação da nanotecnologia, da robótica e da automação poderão produzir um cenário de desemprego sem precedentes, avalia Glenn, que há quarenta anos faz projeções para instituições que trabalham com a produção e a difusão de conhecimento”: “O futuro do trabalho será inventar o próprio emprego

5ª O que eu percebo é que prá vc afirmar que a origem de todo mal é o Estado, que “rouba através de impostos”, é obviamente uma enorme falta de conhecimento da história. A regulação sobre o trabalho não foi uma ação do Estado burguês querendo impostos: a regulação foi resultado da luta dos próprios trabalhadores, que se vendo escravizados, com jornadas desumanas, violência cotidiana por parte da chefia, trabalho infantil, etc etc etc, que não caberia em um curto comentário, lutaram prá estabelecer um mínimo de dignidade às suas vidas; o Estado burguês não interviu porque quis, foi obrigado a isso pelos trabalhadores. Não existe a menor condição de se entender economia sem estudar história.

Adicionalmente, NENHUMA nação do capitalismo central (EUA, Inglaterra, França, Alemanha, etc) se tornou potência econômica e tecnológica usando de liberalismo com seu comércio interno sem antes uma total intervenção Estatal (que é uma forma de dividir os custos dessas intervenções com os trabalhadores, porém sem socializar os lucros). Essa é uma balela muito difundida que, basta estudar umas gotas da história prá descobrir que SEMPRE que uma nação começa a pressionar as outras prá abertura de mercado é porque passou DÉCADAS com seu próprio mercado interno anteriormente fechado, substituindo importações com alternativas nacionais através de pesquisas estatais, dando PESADOS subsídios às empresas nacionais, com o Estado desenvolvendo sua própria tecnologia _que depois dá de presente prás empresas nacionais_ prá, quando está em ponto de ser realmente competitiva, então começa a enfiar liberalismo goela abaixo nas nações da periferia do capitalismo (veja que, mesmo o Brasil sendo subserviente ao capital internacional, essa situação de maior investimento estatal em inovação permanece ao CONTRÁRIO do que os liberais costumam pregar). Então é simples, não precisamos disputar por uma ou outra ideologia, apenas estude a história de como essas nações se tornaram potência. O caso mais recente e claramente icônico desse processo é o da China, que fez exatamente isso, e em poucas décadas saiu de uma situação de quintal camponês da periferia para se tornar um gigante econômico, tal como é hoje (veja um dos últimos resultados da atuação nesse sentido). Sim, cada nação com seu próprio processo histórico, e obviamente a China tem suas especificidades, mas os passos dados por ela foram exatamente o contrário do que o liberalismo prega _ incluindo  aí neo-liberalismo, libertarianismo capitalista, anarco-capitalismo… _ e exatamente o mesmo que as grandes potências econômicas fizeram.

A questão primordial no Brasil, frisando nossas especificidades históricas, não foi a questão do Estado intervir ou não. A grande questão aqui é que o Brasil é uma nação que já nasce subserviente ao mercado internacional e mero exportador de “commodities“, simplesmente porque ao tio Sam (que hoje é quem, essencialmente comanda essas bandas, que substituiu nisso a Inglaterra) interessa que assim o seja.

Um caso clássico prá vc entender como o papel do Estado é sempre o de proteger os capitalistas ao invés de roubá-los, estude o caso das ferrovias brasileiras. Sempre que elas deram ALTOS lucros, o Estado passou pros empresários a preço de banana; quando deixou de dar lucro, o Estado foi e comprou a preço de mercado ou mais. Esse é um de VÁRIOS exemplos que eu poderia dar. Estatizar ou não, depende do quanto os capitalistas querem/precisam daquele setor funcionando a contento, por ser um setor de infraestrutura para os negócios, mas não querem administrar eles mesmos por causa dos baixos lucros. Só que vc só vai descobrir essas coisas quando sentar prá estudar história.

E outra vez: sem a história vc não consegue entender que a) o Estado é parte constituinte do capitalismo; o capitalismo só se tornou hegemônico no mundo através do uso que os capitalistas fizeram E FAZEM do Estado burguês. Porém… b) como a tendência imanente do capitalismo é acabar com a livre competição (isto é: no capitalismo, o “livre mercado” é, por determinação da própria lógica interna do capital, de “mata-mata” entre os empresários, um momento curto fadado à concentração de monopólios em poucas empresas; porém “livre” da forma como muitos liberais pregam hoje nunca foi, e nenhuma das gigantes até o momento sequer sinalizou que queira), foi consequência desse processo histórico que surgiram os gigantescos monopólios que hoje comandam nações.  http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=rede-capitalista-domina-mundo#.WL4tfXfatrk

Outro caso clássico: a Guerra do Paraguay, um genocídio praticado pelo Brasil e financiado pela Inglaterra _ prá defender os interesses comerciais das empresas inglesas_ , contra o único país da América do Sul que um dia ensaiou de verdade obter autonomia econômica. Esse foi o resultado prá grande maioria dos países da periferia do capitalismo que tentaram se libertar das potências econômico-militares do capitalismo central.

A existência desses monopólios, por conta do poder que detêm sobre os Estados burgueses, limita as possibilidades de empresas menores, embora não elimina completamente a existência delas.

6ª Nenhum capitalista de vulto faz qualquer empreendimento sem certeza absoluta de retorno de lucro ALTO. E prá isso fazem estudos de viabilidade. Se os estudos comprovarem que não dará MUITO lucro, ele nem começa. Capital de risco só injeta quem já tá podre de rico, isto é, a quem não fará diferença perder aquele montante, e esse é sempre muito raro.

Conclusão: eu não preciso defender nenhuma ideologia nem defender algo que nunca foi realizado antes (como o comunismo “pós-capitalismo”) prá demonstrar que o Estado é o melhor amigo das empresas: a história mostra isso cabalmente; porém, por conta do processo histórico próprio do capitalismo, essas empresas _ diferentemente de como fora até a metade do século XVIII _ são hoje sempre um grupo muito seleto e muito muito poderoso de empresas.

Agora, qual a necessidade de se continuar com esse joguinho de fabricar prá vender? A humanidade já tem a capacidade de produzir prá suprir necessidades, de forma racional e não na quantidade máxima prá quebrar o adversário; e com o avanço da tecnologia, produzir na quantidade necessária e sobrando tempo prá usufruir da vida, ao invés dessa corrida maluca e inútil na qual todos nós estamos; a humanidade tá numa corrida irracional prá auto-destruição, mesmo havendo tecnologia necessária prá o bem-estar efetivo de todos. A produção prá satisfação das necessidades, e não prá vender, seria, do meu ponto de vista, a verdadeira vida libertária. Só que as soluções que vc aponta usam da lógica interna do capital, onde o que se produz é para compra-e-venda. Essa lógica, nas condições atuais, torna as relações humanas paradoxalmente desumanas. Se produzir alimento não der lucro, eu não produzo; e tanto faz se por isso haverá mais pessoas passando fome, eu não quero ter prejuízo. Percebe? Lucro, prejuízo, venda, compra, são todas abstrações que não têm nada a ver com as nossas reais necessidades. E todas elas não só são inúteis prá eu me realizar como ser humano, como são obstáculos ao desenvolvimento sadio da humanidade. Eu não quero um Estado prá ficar gerindo o capitalismo no lugar dos empresários: eu quero que a gestão das nossas necessidades seja feita por nós mesmos, sem essas mediações inúteis.
O capitalismo já foi revolucionário. Hoje ele nos prende no passado.

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