Sugestão de roteiro de estudo para feministas marxistas

Introdução

O equívoco mais comum que vejo entre as feministas em geral é o de começarem estudando o feminismo em si, sem antes ter uma noção geral do funcionamento mais profundo e essencial da sociedade como um todo. Prejudica MUITO não ter essa noção, e isso se nota tanto nas explicações causais que vemos a rodo sobre as opressões quanto as “soluções” apontadas para os problemas sofridos pelas mulheres. Portanto, fica aqui uma sugestão de leituras para estudo que, eu espero, diminua esse déficit teórico atual entre as militantes.

Note que quem já se aventurou a ler, por exemplo, o “Mulher na sociedade de classes”, da Saffioti, sem uma base teórica anterior, se conseguiu aproveitar, acabou sendo pouco; como diz Lessa, a leitura imanente da obra mostra mais do que o superficial deixa ser apreendido.

A ordem de leitura não é acidental: um texto bastante introdutório aos contextos teóricos marxianos, um pouco da INDISPENSÁVEL Economia Política, um livrinho sobre o porquê dessa nossa (dos revolucionários) dificuldade em estudar a teoria revolucionária, alguns elementos introdutórios ao método marxiano, depois um aprofundamento do tema do primeiro através da ótica de Lukács, depois o mesmo mas no âmbito da alienação (importantíssimo para quem deseja lutar contra opressões!).

Em seguida um texto analisando historicamente o patriarcado (num apanhado mais amplo) e o programa de emancipação da mulher contido dentro do projeto comunista de sociedade. Depois alguns textos que já são considerados clássicos entre as leituras feministas “classistas”: Wendy (precedido do livro de Tróstsky da história da revolução) e Davis (precedido de uma análise do racismo na perspectiva ontológica lukacsiana). Depois uma rica análise da formação econômica brasileira (contexto no qual estou) e então outro clássico, dessa feita o da Saffioti.

Porque isso tudo é importante? Porque “sem teoria revolucionária, não existe ação revolucionária“! Sem entender a realidade social, você não consegue modificá-la; dado que, a priori, o objetivo das feministas seja mudar o mundo prá melhor (o fim do patriarcado!), só o fará se estiver sendo capaz de fazer uma leitura objetiva da vida concreta.

Exemplo: o livro da Angela Davis é importantíssimo, especialmente para as mulheres negras de língua inglesa, mas também para as mulheres em geral. Porém, sem base teórica prévia, as mulheres negras brasileiras seriam tentadas a fazer transposições mecânicas, tanto do que ocorreu quanto das explicações causais dadas por ela, de lá para cá. Ora, a princípio, na aparência e no senso comum do fenômeno, a história estadunidense e a brasileira são idênticas: ambas tiveram uma longa história de escravidão de negras e negros e ocorrem racismo contra negras e negros. Mas a semelhança não vai muito além disso. Portanto, sem um cuidadoso estudo da formação econômica e da história brasileira, dificilmente tais diferenças surgirão, e isso repercutirá, fatalmente, na estratégia e táticas de luta dessas mulheres aqui. Ambas as necessidades são, acredito eu, levemente supridas através dos livros aqui indicados: do Neto e o da Saffioti.

Outro exemplo: Marx & Engels defendiam que sob o trabalho associado, a opressão do patriarcado não teria mais as determinações materiais que o fortalecem, abrindo portanto, a possibilidade de eliminá-lo por completo. Saffioti, em alguns comentários em seu “A mulher na sociedade de classes”, afirma que, com base nas experiências do assim chamado “socialismo real” (que, apesar da situação melhor da mulher quando comparada com alguns países centrais do capitalismo, o patriarcado dava vivas mostras de vitalidade), era possível afirmar que o patriarcado tinha a capacidade de se “autonomizar”, sem depender das forças materiais para isso. Essa não é uma questão trivial, e a resposta a isso é ESSENCIAL para se traçar a estratégia de luta da emancipação das mulheres. Acredito que Lessa responde essa questão adequadamente.

Adicionei alguns filmes que acredito que contribuam com as discussões, alguns com peso de reconstrução histórica e outros por terem conseguido apanhar bem (a meu ver) a realidade em algum aspecto importante.

OBVIAMENTE que essa lista é um apanhado minúsculo da necessidade real. Reconheço que a história brasileira aqui ainda está deficiente e nem mesmo coloquei algo da história mundial; logo que eu encontrar um livro a contento, eu o adiciono à lista. Mas o essencial está dado, e se quem se beneficiar dessas sugestões não permanecer apenas nelas já me sentirei realizado com o intento dessa postagem! =D

Sugestões para uma base teórica feminista/revolucionária

O Revolucionário e o estudo: porque não estudamos? (Lessa; São Paulo : Instituto Lukács 2014) Disponível para baixar em PDF aqui.

A possibilidade ontológica do conhecimento (Paniago, 1996) As teorias feministas de fundo teórico “pós-modernista” (eu sei que nesse conceito se costuma colocar uma gama muito grande de autores que não se identificam com essa “linha teórica”, mas são colocados juntos pelos teóricos marxistas porque comungam de sua base irracionalista) abraçam pressupostos que em geral excluem a possibilidade de se conhecer objetivamente a realidade. Ora, se não for possível conhecer objetivamente a realidade, não é possível tornar qualquer luta em luta coletiva, já que as opressões serão sempre de cunho subjetivo, “semiologizado”, nas palavras do José Paulo Netto. Portanto, esse texto da Paniago se torna fundamental para começar essa caminhada desfazendo uma das mais prejudiciais e desgraçadas mistificações realizadas pelos pós-modernos.

Economia política: uma introdução crítica / José Paulo Netto e Marcelo Braz.  – São Paulo : Cortez, 2006. – (Biblioteca básica de serviço social; v. 1) ISBN 85-249-1258-8. É um livro um tanto pesado, mas é o fundamental a se saber da Crítica da Economia Política. Menos denso, e com algumas falhas fundamentais, esse da Manzano pode ser uma “pré-introdução” útil, mas muito insuficiente: Economia política para trabalhadores (MANZANO, Sofia. São Paulo : Instituto Caio Prado 2013).

Introdução à Filosofia de Marx (Lessa & Tonet; São Paulo : Expressão Popular 2011) Disponível para baixar em PDF aqui.

Capital e trabalho na formação econômica do Brasil (Artur Bispo dos Santos Neto; São Paulo : Instituto Lukács 2015)

Introdução ao Método de Marx (J. P. Netto; São Paulo : Expressão Popular 2011). Quem quiser enfrentar o desafio de muitas horas com o Netto explicando em vídeo sobre o Método em Marx, veja esse link da camarada Cristina Paniago.

Método científico: uma abordagem ontológica (Ivo Tonet; São Paulo : Instituto Lukács 1ª Edição, 2013) Disponível para baixar em PDF aqui.

Mundo dos homens: trabalho e ser social (Lessa; São Paulo : Instituto Lukács 2012, 3º edição) Disponível para baixar em PDF aqui.

Para compreender a ontologia de Lukács, LESSA 2016.

Lukács: Ontologia e alienação  (Norma Alcântara; São Paulo : Instituto Lukács 2014) Disponível para baixar em PDF aqui.

Abaixo a família monogâmica! (Lessa; São Paulo : Instituto Lukács 2012) Disponível para baixar em PDF aqui. Capítulo 1.

Quest for Fire (1981, “Guerra do Fogo”) Direção: Jean-Jacques Annaud.

Abaixo a família monogâmica! (Lessa; São Paulo : Instituto Lukács 2012) Disponível para baixar em PDF aqui. Capítulos 2 até o final.

Capital e Estado de Bem-estar: O Caráter de Classe das Políticas Públicas” LESSA 2013. São Paulo : Instituto Lukács 2ª EDIÇÃO revista e ampliada.

Mulher, estado e revolução (Wendy Goldman, São Paulo : Boitempo, 2014).

Racismo e alienação: uma aproximação à base ontológica da temática racial (Uelber B. da Silva; São Paulo : Instituto Lukács 2012) Disponível para baixar em PDF aqui.

Mulher, raça e classe (Angela Davis, São Paulo : Boitempo, 2013)

Impossível passar pela temática patriarcado/machismo/feminismo atualmente e não se deparar com as discussões/polêmicas em torno dos – e muitas vezes contra/a favor dos –  “pós modernos” (hoje: todas as vertentes irracionalistas). Os dois vídeos abaixo são importantes, mas breves, apontamentos a respeito. Depois, o livro do C. N. Coutinho:

Palestra do Prof. José Paulo Netto – Modernidade e Pós-modernidade – YouTube

A atualidade de “O estruturalismo e miséria da razão” para a crítica do pós-moderno – Mavi Rodrigues – YouTube

O estruturalismo e a miséria da razão (C. N. Coutinho)

Uma pequena base de história, com sugestões de filmes

A Era das Revoluções (1789-1848), HOBSBAWM, Eric 1961

Germinal (1993, “Germinal”; baseado no romance homônimo de Émile Zola) Direção: Claude Berri.

Les Miserables (2013, “Os miseráveis”; baseado em Os Miseráveis, o romance francês de 1862 escrito por Victor Hugo.) Direção: Tom Hooper

O Manifesto Comunista (Marx & Engels 1848)

A Era do Capital (1848-1875), HOBSBAWM, Eric 1977

12 Years a Slave (2013; “12 Anos de Escravidão”) Direção: Steve McQueen

A Era dos Impérios (1875-1914), HOBSBAWM, Eric 1987

A era dos Extremos – O breve século XX, HOBSBAWM, Eric 1994

Suffragette (2015; “As Sufragistas”) Direção: Sarah Gavron

Rosa Luxemburgo (1986) Direção: Margarethe von Trotta

Battle for Sevastopol (2015; “A Batalha de Sevastopol”) Direção: Sergey Mokritskiy

Angela Davis fala de racismo, violência e revolução em 1972.

A Time to Kill (1996; “Tempo de Matar”) Direção: Joel Schumacher

A Cor Púrpura (1985) + Precious (2008)

Anos 2000: Domésticas: o filme (2001) Direção: Fernando Meirelles & Nando Olival

Que horas ela volta?

Meninas, gravidez na adolescência- O drama do BRASIL

DANDARAS: a força da mulher quilombola

Leia também:

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Crítica a textos rasos de facebook

A ausência das mulheres na política

Sobre a Marcha Mundial das Mulheres hoje

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