A terrível falta de base teórica da militância contemporânea: um exemplo

Texto da página do facebook “Feminismo marxista”

Seria o “sugar daddy” uma glamourização da prostituição?
Me parece um grande retrocesso no século XXI mulheres voltarem a depender de homens mais velhos em troca de favores sexuais. Não é um julgamento às mulheres que por alguma razão recorrem a essa alternativa, sabemos que vivemos em um sistema cruel e que muitas não possuem opções. Mas essa idéia tem surgido amenizando os danos da prostituição, uma liberdade sexual ilusória, uma verdadeira prisão que pode se tornar perigosa para muitas mulheres.
Seguimos na luta para que sejamos cada dia mais independentes e emancipadas até a Revolução e reconstrução dessa sociedade.
#Khaleesi

MINHA ANÁLISE SOBRE ELE
Qual trecho/conceito marxiano nos ajudaria a destrinchar esse texto? Bom, da minha parte eu fiquei com a FORTE sensação de que o texto tá defendo aqui algum tipo de trabalho de conscientização. Se não, essa postagem serviria prá quê, mais exatamente? E note que o texto não responde qual a causa de ocorrer esse retrocesso (SE algum dia houve avanço!), que nos daria a raiz desse problema, prá suas leitoras poderem ficar esclarecidas sobre como lutar contra isso.
Portanto, acho que ficando essa postagem com um caráter de “trabalho de conscientização”, e já que a página é de Feminismo Marxista, eu lembro daquele conceito marxiano que nos é basilar: a vida concreta fabrica a consciência. Logo a meta da postagem estaria meio esquisita.
Agora quanto a “… “sugar daddy” uma glamourização da prostituição… essa idéia tem surgido…” Até onde eu sei, a prostituição em todas as suas formas nunca deixou de existir na sociedade de classes, seja a moça do “vintão” (aos que não conhecem a referência: o filme da Bruna Surfistinha) seja a “acompanhante requintada”. Além do “feminismo” pequeno burguês que defende a relação “suggar daddy” como “liberdade sexual” apenas para proteger o status quo vigente, pode estar acontecendo também de os tabus sociais que impeliam essas mulheres a se esconderem e viverem sem vida social estão diminuindo, logo elas se sentem mais à vontade para se exporem publicamente como tal; e encharcadas da ideologia dominante, é claro que defenderão sua “relação”.
A redação em questão dá a entender que por conta de uma ideia ruim (?)  houve um enorme retrocesso (?) na vida das mulheres em relação ao que havia no século XX. Retrocede o que já avançou antes, certo? Quando ocorreu esse avanço, para que houvesse retrocesso?  Além do mais, ocorrerem retrocessos da vida concreta por conta de apenas e exclusivamente idéias… um tanto hegeliano, não?
“sabemos que vivemos em um sistema cruel e que muitas não possuem opções.”–> aqui é possível notar que quem redigiu não tem muita noção sobre o conceito de “totalidade” marxiana. Se o capitalismo engendra uma “totalidade”, nenhum indivíduo dentro dele escapa de sua influência (inclusive feministas, comunistas etc). Logo, a sociabilidade deformadora gerará uma certa consciência a qual irá guiar as decisões do indivíduo a partir desse contexto burguês, onde tudo TUDO TUDO TUDO é mercadoria. Então a “opção” (de um ponto de vista coletivo) não é e não será feita com bases ideais distantes: a “opção” será resultado e estará limitada à produção e reprodução da sociedade. Isto é: se a realidade concreta induz certo comportamento, via de regra os indivíduos verão certo número limitado de “alternativas”, mesmo sob “trabalho de conscientização”.
“Mas essa idéia tem surgido amenizando os danos da prostituição”–> Aqui fica claro que ao invés da página ser chamada Feminista marxista, deveria se chamar Feminista hegeliana. Quer dizer então que essa “idéia” está amenizando os danos da prostituição? Oras, se é assim, então, devemos divulgar e estimular essa ideia, já que ela está amenizando os danos da prostituição! Afinal, “a revolução não é prá amanhã…”
“uma liberdade sexual ilusória”–> se há ganhos materiais nessa relação, e essa relação está sendo mantida POR CAUSA desses ganhos materiais, então o estímulo prá essa relação ocorrer não foi o de “uma liberdade sexual ilusória”, mas os ganhos materiais! Certo?
“Seguimos na luta para que sejamos cada dia mais independentes e emancipadas até a Revolução e reconstrução dessa sociedade.”–> Essa eu queria que as moças aqui me respondessem: é possível, dentro do sistema capitalista, estar a “cada dia mais… emancipadas”?
O que o texto quer dizer sobre “a cada dia mais independente”, eu não tenho a mínima idéia! Porque se se refere à mulher como “independente e emancipada” estando no “mercado de trabalho”, então a maioria da população mundial JÁ ESTÁ EMANCIPADA E INDEPENDENTE?

Perguntas difíceis de responder quando não se tem base teórica. É compreensível o desejo de colocar uma contraposição às posições legitimadoras da ordem burguesa, como são as das “feministas” pequeno-burguesas, que afirmam que “sugar daddy” seja resultado de “liberdade sexual”. Mas as respostas contra tais legitimações às deformações da sociabilidade burguesa precisam ocorrer de forma séria e responsável, com base teórica, pesquisa e argumentos fulminantes, para que as mulheres da classe trabalhadora peguem tais argumentos (das feministas marxistas)  e com isso, recusem a ideologia burguesa, para se unirem em torno de um projeto verdadeiramente emancipador da humanidade: o comunismo!
Sugestão de leitura:

O Revolucionário e o Estudo: porquê não estudamos?

Leia também:

Sobre a Marcha Mundial das Mulheres hoje

A ausência das mulheres na política

Sugestão de roteiro de estudo para feministas

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