12 críticas ao texto do André Machado

Obs. Esse texto foi escrito ANTES de ele voltar atrás (pero non mucho… 😉 ) da opinião destilada nesse texto. O abaixo foi escrito originalmente para o VOL em 29/02/2016 e reproduzo agora aqui no meu blog. Embora minha percepção do aspecto político dessas questões tenha aguçado bastante desde essa época, ainda concordo quase integralmente com minhas posições defendidas aqui.

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O colega André Machado escreveu esse artigo possivelmente como resposta a esse texto e talvez esse também.

Eu senti a necessidade de responder sobre algumas falácias do texto do André. Lembrando que uma falácia não é sempre construída com a intenção de enganar, sendo corriqueiro alguém tentar explicar um fenômeno usando uma falácia sem se dar conta disso: quem já leu Richard Dawkins (e as introduções ao livro dele) deve ter notado que um dos escritores o qual ele esclareceu falácias escreve um prefácio do livro do Dawkins, mostrando a admiração dele pelo Dawkins, o que pelo jeito era mútua; portanto, não tenhamos uma noção maniqueísta do assunto.

1° Textualmente: “a maioria dos usuários de computador brasileiros escolheram o Windows como seu sistema operacional principal ou único.”

É mesmo? Então eu estou entendendo que essa maioria teve a oportunidade efetiva de utilizar um sistema operacional completamente livre & FUNCIONAL, comparou a capacidade de ambos, e então concluiu que a janelinha é melhor. Você acredita mesmo que foi isso o que aconteceu?

A questão é: você não escolhe o que você não conhece. Não tem como você escolher algo com o qual não teve contato.

A Microsoft dificultou infinitamente a instalação de SO completamente livre, cortando a possibilidade em nível de hardware: com a BIOS era possível você orientar o boot de um iniciante à distância, por comunicação eletrônica. Hoje em dia, até eu, macaco velho nisso, tenho dificuldades pessoais em dar boot de SO em computadores que venham com MS Windows pré-instalado, por conta do UEFI da MS. Isso toca em outro problema:

Por puro comodismo, as pessoas ficam com o que já está lá. É por isso que o “ecossistema Microsoft” continua muito bem, obrigado: a TOTALIDADE dos notebooks (com exceção dos Apple) saem da loja com Windows. A escolha foi feita, mas não pelo usuário final.

Ademais, esse raciocínio esconde outra falácia: nem mesmo eu, que QUERO usar um sistema completamente livre, conseguirei. Porquê? Porque o hardware do meu notebook não me permite isso. Como obstáculo adicional para se usar a contento um sistema operacional livre, além do UEFI da Microsoft, existe o problema com placas de rede wifi, bluetooth, placa de vídeo, e daí para mais específicos, como botões touch etc. Dizer que eu escolhi algum desses periféricos não compatíveis com SL não corresponde à realidade.

Eu não sei de onde ele tirou essas estatísticas em que no mundo mobile, a MS esteja na frente. INDEPENDENTE DE ESTAR OU NÃO NA FRENTE, o usuário de software livre está sendo prejudicado; oras, em termos de liberdade de software, que grandes diferenças temos entre Android e Windows Phone? Se eu não posso, em hipótese alguma, instalar um SO totalmente livre – que é fundamental – então, diferença nenhuma.

6° Textualmente: “sem falar nos fracassados programas de inclusão digital promovidos pelo Governo Federal na década passada, onde eram vendidos computadores populares com distribuições de Linux…”

Não sei qual foi(foram) o(s) sistema(s) utilizado(s). O que eu li por sites por aí é de que eram customizações Linux de empresas brasileiras. Porém de péssima qualidade.

As ações do governo federal em torno do SL foram frequentemente ambíguas e, atualmente já regrediram muito próximo do ponto em que estavam antes da primeira gestão do Lula. Porque ambíguas? Porque quando você constrói um projeto de SL em que empresas terceirizadas injetam software proprietário em pontos-chave do funcionamento da coisa, você tende a ficar completamente refém dessas empresas, e foi exatamente o que aconteceu nessa história e em outras ações do governo federal em torno do SL.

Exemplos aos milhares são os parques computacionais de escolas, em que aqui mesmo no VOL, colegas trouxeram o fato de que as pessoas acabavam achando o Linux um lixo, mas esses colegas, por entenderem que o problema estava em um software proprietário fazendo o gerenciamento e o parque computacional muito ultrapassado, acabava frustrado porque não tinha como esclarecer muito bem esses pormenores técnicos para todos.

Em outras palavras: o problema, eram os softwares proprietários, os mesmos que os “ativistas raivosos” que o André aponta, estão tentando tornar evidente à comunidade do SL.

E mais: mesmo que fosse um SO totalmente livre, não se faz uma mudança de cultura sem um mínimo de trabalho didático com as pessoas. Supondo que os computadores da inclusão digital fossem com SO totalmente livre, a população está aculturada pela MS; o mesmo que se faz em empresas, o processo de migração é acompanhado pelo processo de aprendizado dos usuários, que possuem uma tendência natural a recusar a novidade. E isso não se caracteriza escolha de fato.

7° “…e cuja primeira coisa feita pelo dono era substituir o sistema livre por uma versão ‘alternativa’ do Windows XP.”

Eu não preciso ignorar o fator cultural da média da população brasileira para apontar o SL como opção libertadora. É exatamente isso que eu devo fazer (CASO EU SEJA REALMENTE UM DEFENSOR DO SL): apontar que a opção existe, porém, os fabricantes, frequentemente por PURA PRESSÃO DA MICROSOFT, mas as vezes não (isto é, no caso das placas de vídeo, por exemplo) dificultaram a vida dos usuários SIM!

E o FISL e o FLISOL seriam ambientes PERFEITOS para a grande lição que os novos usuários teriam: aprender que a estória de que eles possuem escolha é mero MITO. E que na verdade, quem está fazendo as escolhas são as empresas, de acordo com o que elas considerem mais lucrativo a elas. Se nem nesses eventos forem os lugares mais corretos prá se aprender essas lições, será onde? Em eventos de lançamento da MS?

Esse último argumento dele que citei mostra que o André Machado faz algum tipo de confusão: FISL e FLISOL são, por natureza, eventos ALTERNATIVOS. Isto é, ele nunca foi planejado para ser evento que represente a massa da população; até porque eles só existem exatamente para serem um contraponto ao comportamento padrão. Se a maioria da população usasse SL, não faria sentido ter dado início a eventos dessa natureza, já que seria uma luta a priori, vencida de antemão.

Quando ele fala do WhatsApp, usando-o como analogia ao SO: é o mesmo problema do 1º ponto, que escrevi lá no começo.

10° “Mas por que o Brasil escolheu o Windows? Porque ele atende às necessidades da população e tem os programas e jogos que eles querem ou precisam.”

Quanto ao “Brasil escolher o Windows”, volte novamente ao 1º ponto. 😉 Não sei o que ele quer dizer por Brasil, mas o grosso da população não escolheu nada. Escolheram para eles (e para mim, também). Essa é a dura realidade. E essa escolha foi feita primeiramente em nível de hardware; secundariamente na “venda casada”, em que o computador já sai da loja com o janelinhas.

Quanto a atender as necessidades, pouco a dizer: para cada software no Windows, em geral eu tenho várias opções correspondentes no Linux. O problema de jogos NÃO AFETA UMA GRANDE PARCELA DAS PESSOAS. MUITAS pessoas que usam notebook, utilizam para fazer as coisas mais absolutamente básicas: navegar, office (em nível muito básico: escrever um texto, negrito, itálico; muitas nem sabem o que é uma planilha…).

11° Aqui é uma resposta em forma de pergunta: eu resolvo um problema de origem cultural e de marketing ESCONDENDO o problema? Porque é basicamente isso o que o André está sugerindo aqui: oras, não é o momento ainda de o Fórum Internacional Software LIVRE e o Festival Latino-Americano de Instalação de Software LIVRE mostrarem que nós não temos opção de usar um sistema operacional TOTALMENTE LIVRE!

Isso pra mim é MUITO incoerente! Quanto mais escondemos um problema, mais longe ficamos de resolvê-lo efetivamente. Exagero meu? Oras, o que é o UEFI senão a realidade mostrando que TEMOS SIM QUE MOSTRAR QUE OS FABRICANTES COLOCAM O SL SOB SÉRIO RISCO? Quem acompanha o movimento do SL e o Linux desde o início dos anos 2000 sabe o tamanho que foi a expectativa cada vez maior de termos um computador funcionando completamente com SL. A MS & as fabricantes de hardware têm, continuamente destruído essa possibilidade no nível do hardware.

12° “Do jeito que as coisas estão, esses ativistas estão fazendo um desserviço e ajudando a aumentar a maioria já consolidada.”

Eu queria muito saber o embasamento dessa afirmação; alguma estatística, algum grupo muito grande de pessoas que disseram publicamente: “quer saber? Não vou mais usar Linux, porque aquele ativista me disse que o Ubuntu não é livre.” De que forma, André, os ativistas do SL estão efetivamente prejudicando os atuais usuários de Linux? Desserviço mesmo é afirmar uma coisa dessas sem dar um único embasamento, uma crítica que não enriqueceu em nada o debate.

Concordância e Sugestão à comunidade

Mas no último parágrafo, como uma bênção reservada para o final, ele afirma algo com o qual eu concordo TOTALMENTE com ele, embora não sobre os mesmos pressupostos: “Muitos, ao lerem esse texto, devem estar pensando que, com ele, regredimos vários anos na discussão do software livre. Errado. O fato é que nunca evoluímos de verdade.”

Sim, realmente, a discussão do SL nunca avançou na mesma medida da adoção do Linux. Porque? Porque falar da filosofia envolvendo o SL, as dificuldades em torno do hardware, e o fato de que não temos opções acessíveis de hardware open (ou ao menos funcional ao SO totalmente livre) a todos os bolsos não “vende o peixe” tão bem quanto dizer que “o Linux é de graça”, “o LibreOffice é de graça”, “não pega vírus”, “é estável”…

Porém, a longo prazo, essa política de “apenas vender o peixe” resulta em pessoas que por não saberem de que forma software não-livre e hardware inimigo do SL os prejudicarão MUITO, ainda por cima cria usuários que vem na mesma velocidade em que vão, porque a motivação do uso não os direciona para lutar nem pelos PRÓPRIOS DIREITOS.

Mais do que criticar o André Machado, quero com esse texto expôr à comunidade do SL o que acredito que seja a grande missão para os ativistas do SL:

1. APONTAR O SOFTWARE NÃO-LIVRE, ONDE QUER QUE AFIRMEM QUE SEJA SL. Isso inclui o kernel do Ubuntu, do Mint etc, navegador. Isso é o MÍNIMO DA COERÊNCIA. Se um software não-livre é apregoado como sendo SL, isso é simples e pura mentira.

2. Fazer, tal qual fez o fantástico escritor do Guia Foca Linux, Gleydson Mazioli da Silva: expôr o fato de que estamos, e cada vez mais, sendo prejudicados pelos fabricantes de hardware. Expor isso cada vez mais intensamente, porque, muito diferente das conclusões esquisitas do André, o povo brasileiro não fez uma escolha: escolheram por eles. E não usam o ms rwindo$ porque ele satisfaz suas necessidades, mas sim porque veio pré-instalado; ou porque não conhecem opção; ou porque mesmo que conhecessem, não funcionaria, por causa do hardware. E o papel dos ativistas do SL é, cada vez mais, apontar o papel do hardware como nosso MAIOR obstáculo hoje em dia; muito maior do que o sistema Windows em si, embora a MS contribua muito para a presente situação do hardware.

Se os eventos de SOFTWARE LIVRE não são os locais mais adequados pra isso, eu não sei onde seria.

Grato pela atenção.

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