A ausência das mulheres na política

Os seres humanos tendem a hierarquizar o que ouvem a depender de quem ouvem, isso é inegável. No mais alto grau dessa hierarquia estão as pessoas cuja confiança vc já tem sem sombra de dúvidas. Depois vem uma miríade de degraus, variáveis a depender do indivíduo.

Essa viagem que fiz recentemente deixou ainda mais clara prá mim uma hierarquia que nós homens nem mesmo notamos que praticamos: a diferença da atenção/importância que damos ao que uma mulher fala. Quantos empreendimentos humanos devem ter sido prejudicados por isso, não é possível supor.

Note que esse é um texto de alguém relutante em admitir: esse tem sido um processo lento e doloroso de autoconhecimento, cujos resultados têm dado agora seus primeiros frutos.

Claro está que, para manter essa deformação nas relações humanas, a sociedade nos armou de artifícios bem conhecidos pelas mulheres: ignorar pura e simplesmente OU chamar as mulheres de loucas/histéricas; ambas reações de menosprezo. As próprias mulheres acabam por entrar em um dilema horroroso: insistir em ser ouvida, ao custo de sua estigmatização social, OU o silêncio. Não é de estranhar, portanto, o silêncio delas no âmbito político: acaba sendo sempre um razoável risco emocional fazer-se ouvir, no caso das que persistem lutando por isso. Ou: falar prá quê, se o que falo ficará no limbo?

Mas, se enxergar isso já é trabalhoso, mudar no âmbito coletivo tem aparência de missão impossível. Eu, como alguém com um pouco de base teórica marxista lukácsiana, estou convicto de que no nível amplo de sociedade, essa mudança coletiva é impossível dentro dos limites de sociabilidade do mundo do capital: são deformações características do ser social capitalista.

Em nível individual, é uma mudança árdua e dolorosa demais para supor que a mera conscientização expositiva mudará o indivíduo: é porque para nós, homens, reconhecermos esse fato tão absurdamente simples (e corriqueiro, da perspectiva das mulheres), teríamos de admitir que tratamos as mulheres como algo menos que um ser humano, o que contradiz o que pensamos sobre nós mesmos: “eu sou um bom homem e um bom ser humano”.

Quando esse “não ouvir” (que na prática é desprezo) fosse prejudicial apenas aos homens, poderia passar despercebido na história. Mas o significado de sermos seres sociais interdependentes faz com que estejamos interligados, de modo que o que um faz em sociedade, interfere diretamente sobre os outros. Isto é: o prejuízo disso pode acabar voltando sobre as mulheres OU sendo um prejuízo coletivo, indiferente sobre ser homens ou mulheres os prejudicados. E foi algo assim que aconteceu nessa viagem, cujo resultado negativo dessa surdez machista não ocorreu porque eu já estava em sintonia prévia com o que a moça que estava dando os comandos estava dizendo.

 Isto eu coloco em linhas mais gerais. Agora, quanto a situação dentro da militância: me sinto completamente atônito e desnorteado quanto a imaginar meios de coibir algo tão sutil. Se existem esses instrumentos, eu ainda não os conheço. Recuso, a princípio, o instrumental “pós-modernista”¹ ², já que seu uso já mostrou a que veio, e não foi para melhor (uso aqui o termo “pós-modernista” sem escrúpulos acadêmicos, já que esse instrumental é mais abrangente do que essa amálgama; porém, não havendo termo melhor…). Outra hora me detenho nesse ponto ou linko aqui mais alguns textos sobre.

O efeito desse silêncio sobre as mulheres militantes é seu embotamento em vários âmbitos:

1) seu discurso permanece, ao longo de anos, vacilante e desconexo. Óbvio: essa é uma ferramenta tal qual qualquer músculo: usando, ele se desenvolve; não use, e ele definha.

2)seu domínio sobre as temáticas de sua militância também não fazem um tão grande progresso. Nesse ponto é importante salientar fatores adicionais, porém, todos também derivados do patriarcado: tarefas domiciliares adicionais que muito frequentemente não são cobradas dos homens (que por serem cobrados delas desde a infância produzem desde cedo alguma diferença no alcance da cultura desenvolvida por ambos), filhos, salários menores em relação ao dos homens etc, que cobram tributo em atenção, energia e tempo. Para somar-se a essa lista, o silêncio imposto socialmente acaba por tolher também esse campo. Afinal, todo e toda militante que fez um grande progresso nas temáticas que lhe são mais caras sabe que seu crescimento dependeu, muito frequentemente, do choque e da contraposição com argumentação contrárias, o que não é possível de se obter através do silêncio.

3) Nisso tocamos em outro ponto importante: as mulheres são socialmente criadas para evitar choques de opinião/argumentação; afinal, cabe a elas a diplomacia, a capacidade de evitar a muito _às vezes, a TODO custo_ atritos, já que a agressividade ficou TODA reservada socialmente aos homens. E sem a capacidade de manter sua posição _ao custo de gerar atrito_, ocorre que dificilmente as militantes vão defender ferrenhamente posições contrárias. Não o fazendo, acaba por ocorrer frequentemente uma grande e ôca anuência com quase tudo que se pauta. Com isso não se cresce teoricamente: basta concordar.

4) Essa agressividade _reservada socialmente aos homens_ acaba também por ser um fator em si, adicional, nesse bojo. Política é historicamente um ambiente masculino, e não poderia deixar de ter as deformações características dessa maioria. Essa combinação toda acaba por gerar, em ambientes de militância, um ar bastante tóxico para elas: não são criadas para a disputa, para a agressividade, a tal ponto que se sentem deslocadas, como sendo um local que não faz sentido estarem. A fuga delas, portanto, é enorme. Quando chegam a se aproximar.

Dado que o processo histórico do desenvolvimento da sociedade da qual somos depositários excluiu as mulheres dos assuntos que versam sobre o “destino da humanidade” (grosso modo: assuntos políticos),  deixando para elas apenas os assuntos domésticos, o ambiente político da esquerda acaba por reproduzir isso em alguma medida em seu próprio meio: o espaço garantido para elas _especialmente quando representando publicamente a sua organização_ acaba sendo a temática da “questão de gênero”. Se nós, materialistas-dialéticos, concordamos, em contraposição à posição hegemônica, que a “questão de gênero” é um assunto que envolve a sociedade em sua totalidade, e não apenas as mulheres, essa “divisão sexual das temáticas” dentro da militância é no mínimo uma excrescência residual do patriarcado em nosso meio.

Seria, portanto, esse um caminho para começar a dirimir as deficiências teóricas das mulheres dos movimentos políticos revolucionários? Isto é, tornar por um lado, o tema do patriarcado assunto de formação política básica de TODOS os militantes, desafogando a atenção e o tempo das mulheres para que possam se dedicar também sobre os “destinos da humanidade” tanto quanto nós? Talvez.

Porém, mesmo que essa seja uma modificação produtiva a esse objetivo, e quanto a ausência das mulheres nos ambientes políticos e os outros motivos de seu parco desenvolvimento teórico? E quanto a sua saída em si desses ambientes, já visivelmente vazio da presença feminina?  Já temos as ferramentas necessárias prá coibir/diminuir esses problemas?

Esse é apenas um esboço, e ausente de uma base teórica mais aprofundada. Mesmo assim, espero ter contribuído na temática.

PS. Deveria ser óbvio que, em um ambiente misto de militância séria, os trabalhos braçais sejam indiscriminadamente realizados por todos, incluído aí os considerados “trabalhos femininos”; pela obviedade disso, não incluí esse tema no corpo do texto.

Sugestão de leitura sobre o tema: “Abaixo a família monogâmica!” LESSA 2012.

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