Sobre a Marcha Mundial das Mulheres hoje

Farei minha crítica por várias vias diferentes baseada em minhas pesquisas de materiais gerados pela Marcha, por suas posições políticas adotadas publicamente e por meus embates teóricos com algumas delas tanto via internet quanto pessoalmente:

1-A crítica da MMM ao patriarcado possui um fundamento idealista sobre as relações de gênero dentro da sociedade. Idealista no sentido de não compreenderem os fundamentos MATERIAIS do poder do patriarcado; isto é, partem de pressupostos ideais para entender a realidade concreta. Consequentemente, se fizeram uma análise errada da realidade, atuarão de maneira errônea sobre essa mesma realidade, sem conseguir modificá-la.

2-Por essas e outras, a MMM não aponta uma ruptura com o sistema. Algumas poucas ainda afirmam defender o socialismo como estratégia (a organização se afirma “anti-capitalista“), mas na prática sua estratégia é a da social-democracia (a diferença é enorme); basicamente presas aos limites institucionais e possibilidades de mudança inseridas na democracia burguesa.

3-O sistema de pensamento “organizador” da luta que a maioria delas defendem (“local de fala”, “vivência” , “empoderamento”,  “representatividade” tal qual praticado por elas etc; nos EUA conhecido como “interseccionalidade”) enfraquece a própria luta delas, porque busca intensificar detalhes que separam as lutadoras em indivíduos isolados, ao invés de convergir para uma luta coletiva que concentre os objetivos mais amplos de um segmento inteiro. Afinal, dentro de uma sociedade de classes, a classe oprimida só tem força coletivamente.

Esse sistema é levado às últimas consequências ao ponto de não ser raro negarem-se utilizar obras basilares ao entendimento da sociedade por serem de autores homens. Ou, também muito comum, mas como uma expressão de uma tendência mais ampla – inclusa as ciências sociais quase em sua totalidade – recusar o estudo dos autores marxistas clássicos por serem esses “ultrapassados para entender a realidade contemporânea”. Os estudiosos de Marx, especialmente  os de matiz lukácsiana, entendem que sem uma ruptura do capitalismo para o que quer que seja (e queremos que seja para o socialismo!), o velho Marx continuará necessário (vital!), embora não mais suficiente para explicar algumas novidades surgidas no desenrolar posterior da lógica interna do capitalismo. Sem entender a lógica mais interna do capital, e de que forma essa lógica interna se relaciona com a propriedade privada e fortalece o patriarcado, não é possível nem mesmo entender contra o quê se luta; se não se sabe contra o quê se luta, as “soluções” tendem a não solucionar de fato.

Note esse trecho do livro “CAPITAL E ESTADO DE BEM-ESTAR: O Caráter de Classe das Políticas Públicas“, LESSA 2013, onde ele mostra de que forma o grande capital se beneficiou dessa “nova onda feminista”, (que difere bastante das anteriores, que apontavam com uma ruptura com o sistema):

Portanto […] o que vivemos durante os anos do Estado de Bem-Estar foi um coordenado movimento pelo qual os sindicatos abriram mão da luta contra o capital e, correspondentemente, o Estado abriu suas portas à participação em suas instâncias de várias lideranças dos trabalhadores. Os sindicatos passaram a fazer, no máximo, o que chamaríamos hoje de uma “oposição propositiva”: colaboraram com a classe dirigente e os burocratas do Estado em busca de alternativas aos graves e crescentes problemas do capitalismo. Essa colaboração de classe foi muito facilitada pelo aprofundamento da divisão dos trabalhadores entre a aristocracia operária e os trabalhadores de colarinho branco, de um lado, e, do outro, o “residuum” composto pelos operários, trabalhadores manuais, não especializados, trabalhadores parciais e demais assalariados de menor renda – além dos desempregados. A burocracia sindical
investiu pesado nesta divisão (Bain, 1910:111 e ss.). Também foi útil à colaboração de classe a fragmentação dos trabalhadores em raças e gêneros, contrapondo os imigrantes aos trabalhadores autóctones, e as mulheres aos homens. Tal cizânia foi cuidadosamente semeada pelo Estado de Bem-Estar e pela burocracia sindical. Tudo isso articulado à burocratização da vida sindical e partidária. (o negrito é nosso)

Como o movimento já perdeu de vista que o socialismo seja o pontapé inicial para o fim DE FATO da opressão sobre a mulher, acabou aberto a influências liberais, como aquelas frequentes reações de muitas delas, que comemoram quando uma única mulher “vence” dentro do sistema usando A PRÓPRIA LÓGICA DO SISTEMA, o qual supostamente elas estão lutando contra. Porque comemorar uma “vitória” que fortalece o sistema contra o qual eu luto? Além do mais, não é uma vitória coletiva, é individual, dentro dos moldes do individualismo burguês. Vide as reações das participantes do MMM em torno da Beyonce e Hillary Clinton, como alguns exemplos bizarros disso.

4- Quem está lutando contra o patriarcado está, literal e diariamente em uma guerra, declarada ou não. Isso significa que, prá vencer essa guerra é preciso:

a) estudar CUIDADOSA E PROFUNDAMENTE a realidade na qual vc está inserida, o que inclui: formação social, economia, nível de consciência de classe, etc

b) estabelecer uma estratégia, isto é, seu objetivo final, de forma muito clara. Qual é a estratégia de luta delas?  Perguntei isso a uma delas uma vez, estou esperando a resposta até hoje; outra me disse que a estratégia de luta era esse mesmo empoderamento em moldes individualistas burgueses. Busquei em sites da organização, também não encontrei.

c) pensar táticas que estejam SEMPRE SUBMETIDAS À ESSA ESTRATÉGIA ESTABELECIDA. Esse é um ponto em que elas pecam seriamente: existe uma constante crítica e auto-crítica sobre cada atuação? Essas ações são planejadas PREVIAMENTE para atingir um certo objetivo ESPECÍFICO, e depois de realizado, elas param prá analisar se os objetivos foram atingidos, para descobrir onde errou?  Se essa auto-crítica não ocorrer, a tendência com o tempo é que a tática se torne a estratégia (prá dar um exemplo claro: esse foi o problema que ocorreu com o PT. A tática era obter a gestão governamental para fazer as reformas de base, e a estratégia era o socialismo. Hoje em dia, a estratégia é obter/manter a gestão pública EM SI). Invertendo ou não tática com estratégia, recairá fatalmente em praticismo.

A minha crítica sobre a falta de embasamento teórico é porque prá você poder atuar sobre um certo objeto (no caso delas, a sociedade), é necessário que você conheça MUITO BEM esse objeto, porque se não o conhecer muito bem, não vai conseguir atingir os objetivos estabelecidos previamente em cada ação (se é que estabeleceram algum… =(   ).

5- Só existe ação revolucionária quando essa ação é norteada por uma teoria revolucionária. Uma quebra completa de paradigma nas relações sociais só pode ocorrer em uma ruptura com o modus operandi da sociedade inteira. E isso (a história está cansada de mostrar!) não se obtém através de reformas graduais do sistema. A teoria revolucionária mostra que o poder patriarcal emana da propriedade privada dos meios de produção possuídos pela classe dominante atual, a burguesia; em posse dos meios de produção, essa mesma burguesia explora a classe trabalhadora lhe arrancando a mais-valia; essa mais-valia arrancada, agora como capital, se volta como um fantasma contra a própria classe trabalhadora que a gerou, na forma de opressões de todo tipo e na forma de MAIS exploração. Sem a quebra dessa forma de relação social, o que se obtiver com perspectiva imediata ou pautada na aparência dos fenômenos terá caráter bastante transitório; o que inclui as parcas “vitórias” obtidas dentro da democracia burguesa brasileira pela MMM.

6- A falta de embasamento teórico, ou melhor, uma base teórica que não esclarece a essência do mundo da humanidade, abriu espaço a que elas centrassem grande parcela de seus esforços em uma luta personalista. Luta que, ao invés de destacar o tipo degradado de relações sociais desenvolvidas no seio da sociedade capitalista (para apontarem a solução que mude isso), atacam fulanos e sicranos, que sendo eles meras expressões do sistema social que os fabrica, ao serem removidos, serão substituídos por outros, iguais ou piores.

A mesma consideração pode ser feita sobre o conceito de “desconstrução” do machismo, onde esperam dos homens que se livrem de todas as mínimas características da sociedade patriarcal impingidas em seu comportamento & discurso através da sociedade no qual formaram sua personalidade e na qual continuam inseridos, para só após isso somarem esforços em qualquer luta. Essa é, obviamente uma impossibilidade prática: se nos digladiarmos em torno de todas as corrupções e rebaixamentos que derivam do sistema sofridos pelos militantes prá só depois considerá-los militantes de verdade, realmente a soma na luta não ocorrerá nunca. Na realidade, essa é uma das necessidades da revolução: colocar a sociabilidade em um patamar superior. Essa desconstrução total antes da soma na luta é utópica, afinal são deformações de um sistema no qual estamos inseridos e somos produtos dele.
E com certeza essa divisão de forças interessa muito à classe dominante: é um velho adágio esse, o de dividir para conquistar, e tem funcionado muito bem contra a classe explorada e oprimida.
Redunda também em maniqueísmo, onde os casos frequentemente expostos pela grande mídia ganham, sob seu escrutínio, um caráter de maldade intrínseca ao indivíduo, sem qualquer consideração sobre o meio que o fabricou _ e continua fabricando.

7- Isso tudo redundou em uma enorme tendência punitivista dentro do movimento.

O fenômeno da violência contra a mulher só terá possibilidade de ser resolvido com uma ruptura da atual sociabilidade para uma superior, onde haja condições materiais para uma plena emancipação humana. A sociabilidade atual fabrica seres humanos que só realizam seu potencial mais animalesco; seu potencial humano lhe é diariamente negado.

Mas só é possível enxergar de onde emana a opressão e muitas outras questões caras ao movimento feminista quando se entende o processo social pelo qual se concentra poder nas mãos de uma classe em detrimento de outra, tal como explicado anteriormente. Porém, a reação mais corriqueira da grande massa das militantes da MMM é defender suas perspectivas à base de suas noções imediatas da realidade, garantindo a validade dessas noções à base do “local de fala”. Parafraseando o velho Marx: “Se essência e aparência coincidissem totalmente, todas as ciências seriam inúteis!” Ao se negarem a estudar a sociedade para entenderem de onde emana o poder e o patriarcado, elas eliminam qualquer possibilidade de suas ações terem efeito DE FATO sobre a realidade na qual atuam. Veja um exemplo cristalino da falta de entendimento mínimo sobre o funcionamento da sociedade.

Quando escrevi esse texto, já estava ciente da magnitude dos riscos envolvidos em publicá-lo; porém, expôr a sucessão lógica das consequências concretas das deficiências teóricas sobre a prática política cotidiana de um movimento dessa magnitude numérica eu considero como uma necessidade e dever pessoal meu, querendo com isso estimular as participantes da MMM, do ponto de vista coletivo, a se apropriarem com profundidade da teoria marxiana por perceberem nela a única teoria social com condições de apontar tanto os problemas da ordem vigente quanto a via de ruptura inescapável à solução.

Sugestão de leitura sobre o tema: ABAIXO A FAMÍLIA MONOGÂMICA LESSA 2012.

Empoderamento para quem? Uma polêmica com a Marcha Mundial das Mulheres

Mészáros: a emancipação feminina e as lutas de classes

O feminismo se junta ao pensamento marxista

Sugestão de roteiro de estudos para feministas

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